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O desenlace de Mário Antonino, de quem fui aluno de Cálculo na Escola de Engenharia de Pernambuco, causou-me uma tristeza inominável.
Esse sentimento conduziu-me a um varal de lembranças – muitas delas ainda estendidas na memória – às quais acrescentei quase tudo o que me acorreu dos longes das bancas universitárias, relembrando, com a tinta da amargura, o doce-amargo de quem partiu deste mundo, deixando entre nós um outro mundo: o da saudade sem igual.
Recorro a meu pai, o escritor Nilo Pereira: “A morte cria uma zona de silêncio: silêncio dos que partem, silêncio dos que ficam.”
Silente, o autor destas linhas conserva, ainda hoje, a infância como instante mágico da vida.
Ainda adolescente, no velho Colégio Nóbrega, recebi os ensinamentos dos cursos ginasial e científico, além da formação moral e espiritual que a Companhia de Jesus costuma transmitir.
De lá saí para atravessar os umbrais da Escola de Engenharia da UFPE, cujos instrumentos da técnica e da ciência – o cálculo e os números – não inibiram a consciência de uma outra engenharia, possível apenas aos vocacionados à construção do humano em cada homem, confirmando Pascal: “A pouca ciência nos afasta de Deus; a muita nos aproxima d’Ele.”
Em 1970, a Escola de Engenharia da Universidade Federal de Pernambuco formava uma turma que marcaria época – não apenas por sua competência técnica, mas também pelo espírito de união, irreverência e amizade que atravessaria décadas. Conhecida como “Turma dos Jacarés”, esse grupo construiu identidade própria na história da UFPE, tornando-se símbolo de companheirismo e orgulho acadêmico.
Mas a Turma dos Jacarés foi além das realizações profissionais. O que mais nos enleva é o espírito de confraternização que jamais esmoreceu. Ao longo dos anos, os encontros mensais, as homenagens recíprocas e as celebrações dos aniversários de formatura transformaram-se em verdadeiros rituais de afeto e memória.
Cada reencontro é uma viagem no tempo – celebração da juventude vivida no campus da UFPE, das noites de estudo, das rodas de conversa e das longas discussões sobre engenharia, política e vida.
Foi nesse clima que recebemos, neste 17 de fevereiro, a triste notícia do falecimento de Mário de Oliveira Antonino, referência entre nós – seus alunos, ainda aprendizes das lições maiores do grande engenheiro e humanista aqui rememorado.
Quem comunicou, em nosso grupo de WhatsApp, o falecimento do mestre – a “indesejada das gentes”, como a ela se referia Machado de Assis – foi o engenheiro José Orlando Vieira Filho, confrade de Mário Antonino na Academia Pernambucana de Engenharia (APEENG), também pertencente à fauna dos jacarés.
Retransmito, com a emoção que me invade, o comunicado enviado por José Orlando:
“Notícia triste: faleceu Mário de Oliveira Antonino, nosso querido ex-professor, amigo e confrade da Academia Pernambucana de Engenharia (APEENG), da qual foi fundador. Antes de tudo, um cidadão dedicado e entusiasta da família, dos princípios cristãos, da Engenharia, do Rotary, do semiárido pernambucano e, mais recentemente, da própria APEENG, onde tivemos convivência próxima. Nossos sentimentos. Que Deus o receba e conforte a esposa e a querida família.”
Mário foi um dos grandes do Rotary Club, onde exerceu a governadoria – o mais alto cargo da instituição – e atuou como assessor internacional. Ali, conjugou o verbo que mais amava: servir, essência do ideário rotariano.
De nossa turma, recebeu o carinhoso apelido de “Eu”. Por quê? Porque frequentemente se referia aos assistentes, dizendo: “Eu, Milton e Reginaldo.”
Esse “eu”, em sua expressão, era um eu-nós, singular pluralizado conforme a sua essência de homem bom, solidário, dividido entre todos para melhor se multiplicar.
Hoje, Mário Antonino está em um mundo de gente que já foi gente deste mundo – ao lado de sua imensa legião de amigos fraternos, que seguiram antes dele.
Foi ele quem projetou a Barragem de Brotas, razão pela qual é sempre lembrado em Afogados da Ingazeira e no Pajeú. Diante de rumores sobre possíveis vazamentos, tranquilizou a população: “É uma barragem seguríssima, com quase dezessete metros de largura. O aparecimento de fissuras não é novidade.” Com a exposição serena dos dados técnicos, e tamanha a sua credibilidade, a todos serenou.
O Projeto Asa Branca, brilhantemente coordenado por Mário Antonino, foi uma das principais iniciativas do governo de Marco Maciel em Pernambuco (1979–1982). Voltado ao desenvolvimento do semiárido e ao enfrentamento da seca, destacou-se pela construção de barragens e sistemas de abastecimento, ampliando o acesso à água no sertão e marcando a infraestrutura hídrica do Estado.
Mário Antonino, entre réguas (o engenheiro), entre rios (as barragens) e entre os Jacarés ( o mestre inesquecível).
Joaquim Cardozo foi o patrono de nossa turma (os jacarés), escolhido em homenagem ao engenheiro e poeta tantas vezes esquecido por Pernambuco – ou, mais precisamente, pelo Recife, seu berço e túmulo. Não seria essa uma exaltação justa e merecida à sua memória?
Na figura de Cardozo, encerro estas linhas, recitando, em reverência e homenagem a Mário Antonino, sua bela Canção Elegíaca:
Quando os teus olhos fecharem
Para o esplendor deste mundo,
Num chão de cinza e fadigas
Hei de ficar de joelhos;
Quando os teus olhos fecharem
Hão de murchar as espigas,
Hão de cegar os espelhos.
Entre nós, os jacarés, os seus olhos, professor, continuarão a luzir em nossos espelhos – legado que alumia nosso caminhar, enquanto formos dignos de suas magistrais lições.
Roberto Pereira – Cadeira 35 – Academia Pernambucana de Letras
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