Retorno do Oasis aos palcos em 2025 mistura nostalgia, dinheiro e drama

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Retorno do Oasis aos palcos em 2025 mistura nostalgia, dinheiro e drama


A melhor descrição do Oasis encontrada no punhado de livros lançados na véspera da turnê de reunião vem de um jovem Pete Doherty Se houve mãos leves, foram também hábeis . Ainda sem ser uma estrela do rock com os Libertines, Doherty foi entrevistado como um comentarista popular de TV em 1997, no dia do lançamento do terceiro álbum da banda de Manchester, “Be Here Now”. “Eu sigo a visão do Umberto Eco”, disse ele para a câmera, “de que Noel Gallagher é um poeta e Liam é um arauto da cidade”.

Na verdade, essa não era a visão de Umberto Eco. O célebre escritor italiano, que escolheu a “Variação nº 22 das Variações Goldberg” de Bach como sua faixa favorita no Desert Island Discs, nunca compartilhou nenhuma opinião sobre os irmãos Gallagher — até onde se sabe. Mas a observação, em si, é certeira.

Com sua voz áspera e intensa, Liam de fato canta como se estivesse transmitindo notícias urgentes a uma multidão reunida numa praça, mesmo quando está apenas dizendo para “fazer uma carreira de pó ao sol”. E, embora as letras de Noel — que parecem retiradas de um dicionário de rimas (“I can see a liar, sitting by the fire” ou em português “Consigo ver um mentiroso, sentado junto ao fogo.”) — tenham sido muito ridicularizadas, há um anseio sincero por conexão e significado em suas melhores composições. É por isso que tantas frases das músicas do Oasis, parafraseando uma delas, deslizaram “para dentro do olho da nossa mente”.

Após anos de brigas entre irmãos, o Oasis finalmente implodiu antes de um show em Paris, em meio a guitarras quebradas, ameaças de violência — e, num toque de puro anticlímax, uma ameixa atirada.

A tirada de Doherty aparece no livro “Live Forever”, de John Robb, um entre vários títulos tentando chamar atenção à medida que os irmãos Gallagher fazem seu aguardado retorno. O interesse não se resume à nostalgia pelos anos 1990. A banda símbolo do Britpop está ligada à década por conta de dois álbuns colossais: o álbum de estreia de 1994, “Definitely Maybe”, e seu sucessor de 1995, “(What’s the Story) Morning Glory?”. Desde a separação conturbada em 2009, no entanto, surgiram novas gerações de fãs. No dia em que sua reunião foi anunciada em agosto passado, eles foram os que mais subiram na parada diária de artistas globais do Spotify, chegando à 20ª posição.

A separação foi explosiva. Após anos de rixas fraternas, o Oasis se desfez antes de um show em Paris, com guitarras despedaçadas, ameaças de agressão e —em um detalhe tragicômico— uma ameixa arremessada. O retorno parecia improvável em 2019, quando Noel descartou qualquer chance de dividir o palco com seu irmão “idiota”. Mas cá estamos: o Oasis reconstituído, com Paul “Bonehead” Arthurs como o único outro membro original, abrirá a turnê mundial em Cardiff nesta sexta-feira. O arauto da cidade e o poeta estão reconciliados. Qual mensagem eles trazem para 2025?

Para Robb, um veterano na cena rock de Manchester, tanto como músico quanto como jornalista, o Oasis representa um passado que já passou. Ele afirma que a separação após uma briga nos bastidores entre os irmãos, aparentemente instigada por Liam ter arremessado a ameixa, pôs fim à “última grande banda britânica de rock ‘n’ roll no cânone britânico de alto decibel que começou com os Beatles“.

É uma descrição típica e enfática, mas o Oasis também se via dessa forma. Uma das primeiras fitas cassete de gravações demo, de 1993, tinha uma capa mostrando uma Union Jack —bandeira do Reino Unido— rodopiando por um ralo. “É a maior bandeira do mundo e está indo para o ralo”, explicou Liam sem rodeios. “Estamos aqui para fazer algo a respeito.”

Do ponto de vista de 2025, esse sentimento poderia estar em um panfleto do partido Reform. Mas havia mais, ou talvez menos, no jingoísmo do Oasis do que a versão política ressurgente e sombria de hoje. Seu orgulho pela bandeira era estritamente focado no simbolismo do rock, improvisando sobre o uso da Union Jack por sucessivas ondas de subculturas juvenis, de mods e The Who a punks e Sex Pistols. Ao mesmo tempo patriótica e subversiva, esta era uma forma alternativa de pompa britânica ao Trooping the Colour.

O resgate dessa tradição pelo Oasis gerou críticas de que eles eram apenas imitadores. Keith Richards declarou, em 1997: “Oasis basicamente copia os Beatles/Stones dos anos 60.” (Liam respondeu desafiando Richards — e também Mick Jagger — para uma briga em Primrose Hill, ao meio-dia.) Uma dessas disputas levou a um acordo extrajudicial após acusações de plágio entre o single “Shakermaker” e o sucesso de 1971 do grupo The New Seekers, “I’d Like to Teach the World to Sing (In Perfect Harmony)”, popularizado por um comercial da Coca-Cola.

Não há como contestar a semelhança — mas, como música, “Shakermaker” pisa forte no jingle cuja melodia Noel pegou emprestada. Se houve mãos leves, foram também hábeis. Da mesma forma, a fama do Oasis como vândalos não era totalmente precisa. Os irmãos Gallagher eram notoriamente briguentos entre si, em meio a latas de cerveja e muitos palavrões. Mas a narrativa que os colocava como bárbaros, em contraste com os refinados rivais do Britpop, o Blur, era uma invenção da mídia. Na realidade, o Oasis também se preocupava com estilo e imagem.

Seu logo, criado pelo designer gráfico Brian Cannon, era marcante: o nome da banda em caixa preta, no estilo do logo da Decca Records nos anos 1960. Cannon e sua empresa Microdot também criaram as capas de “Definitely Maybe” e “Morning Glory”; o cenário encenado da primeira foi inspirado em um quadro de Jan van Eyck. Roupa e cabelo eram essenciais, principalmente para o vaidoso Liam. “Stillismo” é o termo dele para sua postura estática no microfone —cordas do pescoço esticadas, boca como uma caixa de correio, cabeça inclinada para cima— como se estivesse fundando uma nova forma de arte performática.

“Vamos ser a maior banda do mundo”, disse o jovem vocalista a David Beckham, nos anos 1990, entregando ao jogador uma fita com músicas do Oasis enquanto trabalhava como lavador de carros no estádio do Manchester United. Na adolescência, Liam era obcecado por futebol — até levar uma martelada na cabeça durante uma briga, o que o despertou para a música. “É como quando alguém sai do coma falando japonês ou russo”, raciocinou. “Alguém bateu a música dentro dele”, comentou Noel. “Essa pessoa tem muito a explicar.”

Ele compartilha a paixão do irmão mais novo pelo rival do United, o Manchester City, mas as músicas eram sua principal obsessão, curvado sobre o violão em ensaios solitários. Eles cresceram principalmente em Burnage, distrito ao sul de Manchester. Noel nasceu em 1967, na mesma semana do lançamento de “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”. Liam veio em 1972. Eles e o irmão mais velho, Paul, foram criados por imigrantes irlandeses. Robb relata as acusações dos irmãos de que o pai, Tommy, era agressivo, e que os dois mais velhos desenvolveram gagueiras infantis. Liam, o mais novo, teria escapado da violência. Peggy, a mãe, fugiu com os filhos em 1984 para uma nova vida numa casa popular em Burnage, onde ainda vive.

Há muito material para psicólogos explorarem. PJ Harrison, conhecido da indústria musical, faz isso bem em “Gallagher: The Fall and Rise of Oasis” (“Gallagher: A Queda e a Ascensão do Oasis” em tradução livre). Não há contribuições diretas dos irmãos, mas Harrison traça um retrato plausível e ágil: Noel é introspectivo e calculista; Liam, carente e explosivo. Ambos são mostrados como uma mistura de valentia e vulnerabilidade.

A mágoa entre eles é profunda. (Liam já urinou no aparelho de som de Noel em um acesso de embriaguez.) Mas também há uma compreensão instintiva entre os dois. Owen Morris, produtor de Definitely Maybe e Morning Glory, se espantava com a habilidade de Liam de captar instantaneamente as melodias que Noel criava para ele.

Morris ajudou a forjar o som “jumbo” de “Definitely Maybe”: um rugido ininterrupto de escapismo juvenil (“Cigarettes and Alcohol”) e epifanias de estádio (“Live Forever”). Isso os tornou estrelas. Um ano depois, “Morning Glory” os levou ao estrelato global. Com o talento melódico de Noel em destaque, vendeu 22 milhões de cópias no mundo e lançou hinos modernos como “Wonderwall” e “Champagne Supernova”. Os dois shows ao ar livre em Knebworth, em 1996, para 250 mil pessoas (2,5 milhões se inscreveram) selaram sua ascensão ao panteão do rock.

A “ascensão” mencionada nos subtítulos dos livros de Robb e Harrison foi vertiginosa. A “queda”, por sua vez, foi mais um declínio. “Be Here Now” foi alardeado como uma obra-prima, mas Noel hoje o descreve como “meu disco de cocaína”, por seu som ensurdecedor e martelado. Drogas e álcool pioraram a volátil relação dos irmãos. A música ficou presa entre o desejo ambíguo de Noel por experimentação e a obstinação de Liam em manter viva a chama do rock clássico.

A Sound So Very Loud”, dos jornalistas Ted Kessler e Hamish MacBain, sofre com esse longo período de estagnação. O livro segue a cronologia das músicas, inspirado em “Revolution in the Head”, de Ian MacDonald, sobre os Beatles. Como o Oasis não evoluiu como seus ídolos, o formato não os favorece. Os autores avançam a passos lentos por canções pouco inspiradas: “Mas como um momento no tempo, está ok”; “A linha de baixo ainda é muito boa”; e por aí vai.

Robb passa pelos últimos dez anos da banda com entusiasmo e pressa. Escrito de forma caótica no estilo gonzo das revistas britânicas dos anos 1990, o livro ganha com a participação de Noel como entrevistado e o conhecimento detalhado de Robb sobre a cena musical de Manchester. Já Harrison traça com utilidade as carreiras dos irmãos após o fim do Oasis —e a briga tóxica entre eles. Ele especula sobre o motivo financeiro por trás da reunião. Cada irmão, segundo Harrison, pode receber até £100 milhões —cerca de R$ 700 milhões. (Outras estimativas falam em £50 milhões para cada, cerca de R$ 370 milhões.) Ele também cogita se Noel pode aproveitar a turnê para vender os direitos de seu catálogo, o que poderia render até £250 milhões —o que equivale a aproximadamente R$ 1,8 bilhão.



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