A aproximação sino-brasileira atravessa governos, ideologias e décadas de pragmatismo. Mas a crescente polarização exigirá decisões difíceis
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“Brasil e China têm atuação que os aproxima no plano internacional. Preocupam-nos as novas formas de protecionismo, que limitam nosso acesso à tecnologia de ponta. O Brasil e a China acreditam no potencial do diálogo Sul-Sul e trabalham decididamente no sentido de aprofundar, em todos os campos, o relacionamento entre as nações em desenvolvimento.”
A declaração que abre este artigo poderia, tranquilamente, ter sido proferida nas últimas semanas por alguma liderança brasileira ou chinesa. Trata-se, contudo, de recortes de um discurso feito por Fernando Collor, então presidente da República, durante um almoço oferecido ao seu homólogo chinês, Yang Shangkun, que visitou o Brasil em maio de 1990. Essa passagem histórica mostra bem como o relacionamento sino-brasileiro ultrapassa ventos ideológicos de ocasião.
Os dois países possuem uma pauta consistente de interesses comuns, que vão da cooperação tecnológica aos intercâmbios comerciais, passando pela reforma dos mecanismos tradicionais de governança global. Não custa lembrar que as relações diplomáticas formais entre o Brasil e a República Popular da China – nome completo da China comunista, fundada oficialmente após a revolução de outubro de 1949 – foram estabelecidas em plena ditadura militar, em 1974, durante o governo Geisel.
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Dez anos depois, em 1984, o General João Figueiredo foi o primeiro presidente brasileiro a visitar o gigante asiático, sendo recebido por Deng Xiaoping. Apenas quatro anos se passaram e foi a vez de José Sarney ir à China. Naquele ano de 1988, teve início um dos mais importantes projetos da cooperação bilateral: o programa CBERS (sigla em inglês para “Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres”). Seis satélites já foram lançados desde então. Entre outras aplicações, eles permitem o controle do desmatamento e queimadas, o monitoramento de recursos hídricos, áreas agrícolas, crescimento urbano e ocupação do solo.
Os exemplos mencionados até aqui revelam, sem sobra para dúvidas, que o eixo sino-brasileiro é informado por uma agenda pragmática. Dos militares a Collor, passando por Sarney, sem esquecer da famosa visita de Jango a Pequim, recebido por Mao Tsé-Tung, quando sequer estavam firmados os laços diplomáticos formais, os fatos são implacáveis: Brasil e China se aproximaram por entenderem que tal movimento traria benefícios para ambos os lados.
Ao Brasil, interessa uma melhor compreensão da jornada chinesa de desenvolvimento econômico sem precedentes, que acomodou crescimento com inovação tecnológica e distribuição de renda. Interessa, claro, ter acesso ao maior mercado consumidor do mundo. Interessa o apoio diplomático para suas agendas internacionais, como a reivindicação de um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Aos chineses, interessa uma ponte de interlocução privilegiada com a América do Sul a partir da sua principal potência regional. Interessa, do ponto de vista comercial, ter acesso a produtos como petróleo, minério de ferro, soja e proteína animal. Claro, também interessa à China exportar seus outputs industriais de alto valor agregado – vide a recente chegada em profusão de carros elétricos lá produzidos. Em um contexto de acirramento geopolítico internacional, não podemos deixar de mencionar o interesse chinês em construir e consolidar uma ampla rede de parcerias ao longo do chamado Sul Global.
Os recentes acontecimentos – conflitos na Europa e no Oriente Médio, guerra comercial, movimentos por desdolarização, etc. – que ligaram o alerta para o esfacelamento dos espaços diplomáticos tradicionais de negociação e para a polarização entre Estados Unidos e China/Rússia (ou, dito de outra forma, entre Oriente e Ocidente) indicam um cenário prospectivo no qual a barganha dificilmente será uma opção disponível no cardápio. O direcionamento externo do Governo Lula 3 – que aprofunda a agenda ativa, altiva e orientada ao Sul Global que caracterizou os dois primeiros mandatos – não será facilmente acomodado por um contexto global de tensionamento. Cedo ou tarde, será preciso escolher lados. E essa escolha nunca é, nem poderia ser, exclusivamente política.
Atores e interesses diversos serão instados a concertar posições. Nesse cenário, o empresariado nacional jogará um papel decisivo. De que lado estará o grande capital brasileiro? A prevalecer a lógica econômica básica, a posição do agronegócio, que lucra bilhões há mais de uma década no comércio com a China, parece ser relativamente óbvia – relativamente, vejam. O mais recente rompante retaliatório de Donald Trump contra o Brasil teria jogado outros setores para o mesmo campo, em particular os industriais produtores de semimanufaturados e componentes?
Estamos testemunhando o surgimento de uma ordem global “multiplex”, conceito originalmente proposto pelo professor Amitav Acharya. Como em um cinema multiplex, onde o público pode escolher diferentes enredos, diretores, atores, o mundo “multiplex” é um mundo de coexistência entre diferentes tipos de ordens, ideias e valores. Em resumo, há diferentes possibilidades. Trata-se de um mundo multipolar e complexo. O fato é que o mundo que está lentamente se revelando ao longo deste século certamente será um mundo menos ocidental. E esse estado de coisas traz impactos sobre a governança global.
Os valores liberais, as instituições liberais, o sistema das Nações Unidas — nada disso desaparecerá. Pelo menos por agora. Mais adiante, contudo, a hipótese aqui levantada é que não será simples flutuar entre os diferentes polos de uma coexistência tensa entre grandes potências. De que lado estaremos quando chegar a hora de decidir?
Renan Holanda Montenegro é professor de Relações Internacionais no Departamento de Ciência Política e no Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco

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