‘Rejeição’ captura vida na era digital com solidão crônica e desejos sexuais insanos

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‘Rejeição’ captura vida na era digital com solidão crônica e desejos sexuais insanos


“A internet é composta de milhões de solidões piscantes, existindo e desaparecendo, cada uma sonhando as outras.”

A frase aparece no finzinho de “Rejeição”, a coletânea de contos do americano Tony Tulathimutte que tem repercutido no meio literário, mas poderia bem servir como seu cartão de visitas.

Não é que o livro descreva como são as relações no mundo digital —ele é uma das primeiras empreitadas editoriais de sucesso a nascer nesse berço, estruturada como postagens de Reddit, “shitposting” sem noção no X, aqui ainda chamado de Twitter, e confissões viscerais repletas de emojis em grupos de WhatsApp.

A solidão perpassa todos os protagonistas e, como adianta o título do livro, todos eles são recusados seja por seus interesses românticos, por seus rolos de só uma noite ou pelas boas normas da sociedade.

Mas Tulathimutte, que nasceu nos Estados Unidos com ascendência tailandesa, não acha que estamos mais solitários e deprimidos hoje por causa da internet.

“Não tenho certeza de que a solidão seja mais comum do que antes, mas sua visibilidade é certamente maior do que era”, diz o escritor de 42 anos por chamada de Zoom. “Parece uma contradição em termos, mas, se alguém era solitário antigamente, não havia muitas maneiras de saber disso.”

“Só nos últimos anos você pode ficar, ao mesmo tempo, 100% isolado e totalmente em contato com todo mundo. Você pode estar na sua cama, sentir uma fisgada de melancolia e postar uma selfie carrancuda para seus mil seguidores saberem. Pode cultivar essa solidão se convencendo de que o que faz no celular é participar de uma comunidade, mas na verdade não é, né?”

Esse conflito muito contemporâneo está na raiz de todas as histórias. No conto mais ambicioso e metalinguístico da obra, “Personagem principal”, a protagonista Bee recusa todo tipo de marcador de identidade, de raça e origem até gênero, e vai se tornando uma espécie de entidade por trás de milhares de contas virtuais anônimas que abarrotam as redes sociais de besteira e de ódio.

“Você pode presumir que sou o tipo de babaca que só tem amigos virtuais —errou!”, escreve Bee no conto. “Eu não tenho amigos. E era por isso que eu amava o Twitter: um fórum aberto e rizomático no qual você podia agravar doenças mentais existentes, comprar novas, violar seus próprios direitos e ser demitido.”

A obra frenética de Tulathimutte, cheia de ansiedade e da tensão da inabilidade social, analisa como passar o dia todo na esfera pública da internet afeta o que há de mais privado.

Começa com “O Feminista”, um conto que já gerou polêmica quando foi publicado pela primeira vez numa revista, sobre um sociólogo que é tão consciente de seus privilégios patriarcais e fala disso com tanta frequência que acaba se tornando um chato, sem conseguir se relacionar com nenhuma mulher. A trama avança para um desfecho na linha da masculinidade redpill, discussão mais em voga do que nunca.

O livro segue com histórias sobre Alison, garota que entra em um tornado emocional quando seu amigo pede que ela faça um “nude” depois de uma transa inesperada, até um jovem “empreendedor serial” que precisa lidar com “hate” após descrever sua postura controladora com a namorada em uma postagem.

Essa namorada, por sinal, é Alison, e outra sacada de “Rejeição” é realizar interconexões sutis entre todos os sete contos, que culminam em um texto protagonizado pelo próprio autor —uma carta ficcional em que ele próprio é rejeitado por uma editora.

Tulathimutte se aproxima de suas criações, exibindo a mesma teimosia divertida de várias personagens ao comentar a dificuldade alheia de pronunciar seu sobrenome. “As pessoas me chamam de Tony Tula a minha vida inteira”, diz, e esse é de fato o arroba que ele adota nas redes sociais.

“Fiquei pensando em mudar meu nome, porque seria mais fácil, e tive tanta pressão para fazer isso no meu primeiro livro que acabei mantendo o original por puro despeito. Eu não sou nada senão movido por despeito.”

Esse traço também se revela quando o autor se recusa a embarcar em discursos fáceis, como o de que o vício em telas e a vitrine constante do Instagram são responsáveis por deteriorar a saúde mental das novas gerações.

“Há formas de sofrimento que são novas, como cyberbullying e pornô de vingança. Mas isso é ver as árvores e não a floresta. É como culpar os videogames violentos pelos assassinatos em escolas. Se você quer saber por que os millennials e a geração Z têm pior qualidade de vida e expectativa no futuro, é só a economia.”

Segundo o autor, quase meio século de políticas de austeridade desmantelaram o tecido social nos Estados Unidos. “E se você não tem perspectivas para sua vida real, as redes sociais vão ter consequências muito mais graves sobre você. E você fica mais tempo ali, porque é o que pode pagar.”

Mas se esse é um livro com muita densidade dramática, não subestime o quanto ele é engraçado.

Kant, o personagem mais imerso em desejos sexuais delirantes, desenvolve uma autoimagem tão deturpada pelos padrões que arruína suas próprias fantasias ao lembrar que ele mesmo estaria na transa. “Quando ele se imagina fazendo sexo, vê um yorkshire comendo um dogue alemão.”

Um dia, enfim consegue levar para a cama um cara que gosta de levar uns tapas, mas fica meio sem jeito. “Ele acerta a bunda do homem com a força que aplicaria a uma torradeira com defeito.”

“Quero esclarecer que não escrevo tanto sobre sexo, mas sobre sexo ruim ou falta de sexo”, diz o autor. “E sexo é hilário sempre que não é bom.”

O conto centrado em Kant, “Ahegao ou balada da repressão sexual”, tira seu nome de um fetiche muito específico vindo dos hentais japoneses, em que a pessoa fica tão exasperada pelo sexo que envesga os olhos e põe a língua para fora. Pornografia cronicamente online, como se diz.

Escrever um livro fincado em tecnologia tão recente é um risco que nem todo autor quer tomar. Não se sabe o que vai durar e o que logo vai parecer obsoleto. Preocupa Tulathimutte que seu livro fique datado? “Não”, responde ele. “Eles já me pagaram.”



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