Rede Social: Uma casa portuguesa aberta para o mundo e vizinha de Camões

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Rede Social: Uma casa portuguesa aberta para o mundo e vizinha de Camões


As placas sinalizam Casa da Escrita, ao indicar seguir na direção que leva à Sé Velha e à Universidade de Coimbra.

Localizado em um antigo casarão na Alta de Coimbra, o centro cultural, que também abriga uma residência artística, foi rebatizado em 2023 como Casa da Cidadania da Língua.

É o início de um novo capítulo de uma moradia cheia de história. Uma das propriedades dos Viscondes do Espinhal, a casa pertenceu também ao bisavô do escritor e poeta João José Cochofel (1919-1982), que fez dali um ponto de encontro das letras e de resistência.

Uma entrada lateral leva aos aposentos privativos destinados a artistas, escritores e jornalistas residentes, como foi o meu caso no período de 18 a 31 de novembro.

Desembarquei em Coimbra para fazer um projeto de pesquisa intitulado “Nos passos de Camões no Século 21”. Durante duas semanas, fiz um mergulho no universo camoniano a partir da cidade onde o poeta maior da língua portuguesa viveu os seus anos de formação.

Uma experiência que começa por desbravar a história do meu endereço na cidade: o número 8 da rua João Jacintho, nome do médico que adquiriu o imóvel onde o futuro escritor Cochofel viveu desde a meninice.

“Esta casa em que vivi parte de uma infância triste, ensombrada por doenças, as deslumbrantes descobertas da adolescência, as certezas e entusiasmos da juventude…”, diz um trecho de um texto poeta, que enfeita um dos corredores.

Fotos, livros, louças e até o piano da família dão um ar doméstico ao casarão típico português, datado do final do século 19, com sete janelões, varandas e um belo jardim e seus laranjais.

Imagens captadas pela DJ Digital durante minha residência artística na casa, em vídeo que ilustra esse texto.

Em meados do século 20, a bela propriedade foi o refúgio da primeira geração de escritores do Neorrealismo em Portugal.

“É um espaço que tem história de décadas na cultura de Coimbra e na literatura portuguesa“, explica João Rasteiro, poeta e funcionário do município.

Cochofel, seu penúltimo proprietário antes de a casa ser adquirida pela Câmara Municipal de Coimbra, foi ponta de lança da geração que encabeçou o movimento neorrealista nos anos 30 e 40 do século passado.

“Aqui se reunia grande parte da intelectualidade cultural, literária e também política, mas sobretudo de oposição no âmbito do Estado Novo”, prossegue Rasteiro, referindo-se à ditadura que durou 48 anos em Portugal.

No final dos anos 1990, Coimbra foi a única cidade em Portugal que aderiu ao projeto Cidades de Refúgio, liderado pelo filósofo argelino de origem judaica Jacques Derrida com o objetivo de criar uma rede para acolhimento a escritores perseguidos.

Naquela altura desabitada, a residência começa a acolher escritores de passagem por Coimbra. Em 2010, é inaugurada oficialmente como Casa da Escrita. Treze anos depois, passa a ter curadoria da Associação Brasil Portugal 200 anos.





É inspirador chamar Casa da Cidadania da Língua, numa perspectiva mais ampla de união de todos os falantes da língua portuguesa

“É inspirador chamar Casa da Cidadania da Língua, numa perspectiva mais ampla de união de todos os falantes da língua portuguesa”, diz José Manuel Silva, presidente da Câmara Municipal de Coimbra, que reinaugurou o espaço em outubro do ano passado, ao lado do presidente do Senado brasileiro, Rodrigo Pacheco.

Silva destaca a importância histórica do centro de cidadania, arte e cultura. E expressa fascínio pelo Brasil, destacando a influência histórica da Universidade de Coimbra na formação de intelectuais brasileiros.

“A Casa da Cidadania da Língua quer ser um espaço de reflexão e ação para a construção de um futuro mais promissor para Portugal, Brasil e outros países de língua portuguesa“, afirma José Manuel Diogo, presidente da Associação Brasil Portugal 200 anos.

É sobretudo um reduto da lusofonia, ressalta. “Um espaço sem fronteiras, descolonizado e inovador, que possa promover a cooperação e a troca de ideias.”

Nessa nova curadoria que leva para Coimbra um olhar contemporâneo sobre a língua e a produção cultural em torno dela, Diogo destaca a existência de uma programação contínua feita com esse olhar.

Um exemplo é o ciclo de oito encontros de Slam, uma visão descolonizada da língua em que Camões é recitado por poetas de rua. “O que provavelmente ele seria se vivesse nos dias de hoje”, afirma o curador.

Diogo tem atuado para ressignificar a lusofonia como espaço de troca entre culturas, buscando integrar vozes africanas, brasileiras e asiáticas.

Nomes consagrados da literatura em língua portuguesa, como o moçambicano Mia Couto e o português Gonçalo M. Tavares, passaram pela casa, inclusive em residência artística.

Em um dos seus salões, participei de um bate-papo com a professora Maria Bochicchio, do Centro Interuniversitário de Estudos Camonianos.

“Embora não tenhamos nenhum documento ou assinatura de Luís de Camões, sabemos através da sua obra que terá passado por Coimbra”, afirma a professora. “É provável que tenha frequentado a biblioteca do mosteiro de Santa Cruz e a própria universidade, os grandes centros da cultura e do saber no seu tempo.”

A conversa se desenrola na Casa da Cidadania da Língua, uma casa portuguesa, com certeza, encravada nas vizinhanças da Sé Velha, monumento do século 12, símbolo do nascimento de Portugal como nação pelas mãos do primeiro rei, Dom Afonso Henriques, o Conquistador.

A igreja em estilo românico ganhou várias intervenções ao longo dos séculos, que lhe agregou um belo retábulo gótico.

Preciosidades que atraem turistas e estudantes que passam por ali a caminho do campus secular da Universidade de Coimbra, uma das mais antigas do mundo. Com suas capas pretas, parte da indumentária acadêmica, eles sobem e descem as ladeiras do centro histórico.

No burburinho em frente ao antigo paço real, que abriga a reitoria e leva à esplêndida biblioteca Joaquina, ouve-se cada vez mais o sotaque brasileiro. Há dez anos, estudantes vindos de todas as partes do Brasil formam o maior contingente entre os 6.000 estrangeiros ali matriculados.

Além de completar 734 anos, a Universidade de Coimbra celebra em 2024 os 10 anos do fato de ter sido a primeira instituição de ensino superior em Portugal a aceitar a nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para acesso de brasileiros.

Múltiplos sotaques de uma língua portuguesa plural, nascida com Camões que, naquele mesmo cenário, adquiriu seus notáveis conhecimentos traduzidos em “Os Lusíadas”.



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