Reality show com mórmons questiona religião sob ótica do TikTok e do feminismo

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp
Reality show com mórmons questiona religião sob ótica do TikTok e do feminismo


Na frente das câmeras de celulares, mulheres na casa dos 20 aos 30 e poucos, de cabelos longos, maquiagem carregada e boas rodadas de cirurgia plástica, pedem aos céus: “Por favor, Deus, me torne a maior estrela do mundo”. Com calças justas, barriga de fora em camisetinhas cropped e cruz no pescoço, esse é o “MomTok”, grupo de influenciadoras mórmons de Utah, nos Estados Unidos, retratado no reality show “A Vida Secreta das Esposas Mórmons”.

Agora em sua segunda temporada, lançada no mês passado, o grupo está soterrado em disputas pela liderança. Nada sagrados, xingamentos, barracos e discussões de relação conduzem a série. A religião que dá título à série aparece quase como um pano de fundo que, às vezes, vira pomo da discórdia.

Na primeira temporada, disponível no Brasil no serviço de streaming Disney+, o ponto de partida é um escândalo sexual: a autodenominada fundadora do grupo Taylor Frankie Paul havia, em 2022, desvelado que várias das mulheres e seus maridos experimentaram um “swing suave”, a prática de troca de parceiros sexuais sem engajar em sexo de fato. O acontecimento acabou com o casamento dela.

O divórcio, porém, está longe de ser tabu em “A Vida Secreta das Esposas Mórmons”. Demi Engemann, que tenta se alçar à frente do grupo na segunda temporada numa disputa aberta com Taylor, se casou pela segunda vez com um homem 16 anos mais velho.

Layla Taylor, a única integrante negra do grupo, já estava divorciada e com dois filhos aos 22 anos. Ela não foi criada na Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, como as colegas, mas se converteu na adolescência —a escola em que estudava era repleta de mórmons.

É um retrato da população do estado de Utah, que era majoritariamente mórmon desde sua fundação, no século 19. Uma pesquisa publicada em 2023 no Journal of Religion and Demography sugere que os mórmons são, agora, cerca de 42%. A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias estimava, em 2020, que fossem 60%.

A religião, de base cristã e viés primitivista, foi fundada por Joseph Smith, profeta que, acreditam seus fiéis, teria escrito ensinamentos divinos em outros três livros além da Bíblia. Na prática, detalhes saltam aos olhos —os adeptos não devem beber álcool e devem usar “garments”, roupas de baixo que cobrem peito, barriga e coxas.

As mulheres do “MomTok” adotam o que convém. Se as escrituras sagradas proíbem o álcool, então que venham a ketamina terapêutica e rios de refrigerante. Entre goles de Coca Diet, elas discutem sexo, falam sobre orgasmos, abaixam a calcinha para mostrar suas vaginoplastias e debatem o impacto de fazer uma “publi” de brinquedos sexuais no Instagram. Uma foto com um vibrador significa US$ 20 mil, ou cerca de R$ 110 mil, na conta. Os olhos dos seguidores e incentivos dos patrocinadores parecem pesar mais sobre elas do que os olhos de Deus.

Mas as diferentes relações com a religião são fonte de intriga e ruptura no “MomTok”. Jen Affleck, uma das mais conservadoras, usa “garments”. Ela é criticada pelas amigas, que acreditam numa tentativa dela de se mostrar “mais mórmon”.

Uma visita a um clube de strip-tease em Las Vegas vira motivo de briga e separação temporária para o marido de Jen, Zac. As amigas o veem como um homem controlador, crítica que expõem aos próprios maridos.

Mas Jen é, como todas elas, uma personagem complexa. Apesar de mais religiosa e conservadora, a jovem é a ganha-pão de seu casamento. Filha de uma faxineira que trabalha no mesmo hospital em que o pai de Zac atua como cirurgião, são suas dancinhas no TikTok que sustentam o marido, estudante de medicina, e os dois filhos pequenos.

É um debate que remonta as críticas às “tradwives”, mulheres que glamorizam a vida de donas de casa nas redes sociais. A produção de conteúdo flutua pela divisão de trabalho entre homens e mulheres como um serviço inofensivo aos papéis de gênero.

“A Vida Secreta das Esposas Mórmons”, longe de fazer juízo de valores ou tentar educar o espectador, surpreende se mostrar uma vitrine —com uma boa dose de vulgaridade e barraco, como devem ser os reality shows— das contradições contemporâneas entre a vida online, religião e gênero.



Source link

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp

Nunca perca uma notícia importante

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *