A publicidade engana, mas diz muito sobre o público ao qual vende seus produtos. Essa conclusão surge rapidamente em “Oito Cartões-Postais da Utopia”, novo filme do romeno Radu Jude, na Mostra de Cinema de São Paulo. O comercial é a essência do documentário, uma colagem de anúncios veiculados na Romênia durante os últimos 30 anos.
O filme diverte pelo acúmulo desses vídeos todos, que intrigam pela bizarrice. No primeiro comercial, por exemplo, vemos uma guerra de tropas romanas, em clima de épico como no filme “300“. Mas a sequência termina na cena insólita de um jogador de futebol qualquer vestido de soldado, bebendo uma Pepsi e anunciando uma promoção da marca.
Os romenos são um paradoxo, como o narrador dessa peça publicitária diz, e o longa se aventura nos comerciais para explorar esse lado do povo. A produção se divide em oito capítulos, que organizam os anúncios em temas irreverentes como a história do país, as promessas de riqueza rápida e até as diferentes idades humanas. —tudo usando dos comerciais, picotados, intercalados e repetidos ao longo da projeção.
O projeto tem um quê inusitado para quem chega agora, mas cai como uma luva na carreira de Radu Jude. O cineasta passou a última década brincando com a história confusa da Romênia, um projeto que já lhe rendeu frutos —ele venceu o Urso de Ouro, prêmio máximo do Festival de Berlim, há três anos, com “Má Sorte no Sexo ou Pornô Acidental“.
Com “Oito Cartões-Postais da Utopia”, o diretor retomou o contato com a publicidade, na qual começou sua carreira —um dos anúncios exibidos no documentário, aliás, foi dirigido pelo próprio Jude, que afirma que o projeto o levou a revisitar o lado imediatista do meio. “O meu primeiro longa, ‘The Happiest Girl in the World’, no fundo foi pensado sob o viés utilitário dessa área”, diz ele.
Jude também declara que o projeto o atraiu pela possibilidade de documentar a transição romena para o capitalismo. No fim de 1989, com a morte do ditador Nicolae Ceaușescu, o país encerrou um período de 42 anos sob o regime comunista e se abriu ao mercado.
O documentário só saiu do papel quando Jude conheceu o trabalho do filósofo Christian Ferencz-Flatz, com o qual divide a direção do projeto. Professor da Universidade Nacional de Teatro e Cinema, ele pesquisa o audiovisual romeno do período e escreveu alguns ensaios sobre a publicidade do país nos anos 1990 que ajudaram a formatar o trabalho.
“O filme documenta essa transição do país, do comunismo para o capitalismo, mas a gente não quis fazer disso uma tese”, diz o filósofo. “Mas a história é muito mais complicada que isso, e já nos anos 1980 existiam peças publicitárias do tipo que hoje se tornaram objeto de pesquisa.”
Para dar conta de tudo isso, o trabalho da dupla durou quase sete anos. Com o apoio de uma produtora e de colecionadores da área, eles escolheram em torno de cem horas de material publicitário, que foram reorganizados nos 70 minutos do filme.
Mais difícil que a montagem foi encontrar raciocínio coerente em meio a tanta maluquice, porque os tais cartões-postais vão do sonho ao pesadelo em questão de instante. Um dos capítulos da reta final do filme termina com uma família prestes a ser devorada por uma árvore de Natal, por exemplo, e a situação até passa como normal no fluxo dos vídeos.
Esse vale-tudo dos comerciais romenos chamou a atenção dos diretores, mas eles dizem achar mais interessante as reações ao documentário. “Mostrei o filme para pessoas de diferentes partes do mundo e todas elas reagem chocadas à bizarrice dos anúncios”, diz Ferencz-Flatz. “Isso não é exclusivo da Romênia e se relaciona com as diferentes fases do capitalismo de cada país. Elas acontecem em momentos distintos, mas se unem na publicidade.”
Segundo Jude, esse viés reforça de novo o momento peculiar da história do país. “O lado bizarro traduz uma certa liberdade da publicidade romena da época”, diz ele. “Essa abertura pode produzir coisas burras? Sim, mas como eles eram mais livres também podiam mostrar realidades mais feias da nossa sociedade.”
“Oito Cartões-Postais da Utopia” é apenas um dos filmes que a Mostra exibe este ano de Radu Jude, que não para de trabalhar. A programação também conta com “Sleep #2”, média-metragem mudo que acompanha um dia no túmulo do artista americano Andy Warhol. O romeno ainda acabou de filmar dois novos projetos, incluindo uma versão de “Drácula“, que estreia no ano que vem.
“Eu me sinto melhor e menos neurótico quando faço mais em vez de menos”, diz o cineasta. “Tenho uma necessidade de explorar coisas novas com o cinema mesmo quando eles não saem perfeitos. Toda essa diversidade de temas que posso investigar com a linguagem do cinema, quando reunida, é mais importante para mim do que trabalhar em apenas um filme.”

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