A cada dois anos, a festa da democracia acontece no Brasil. Cada brasileiro vota no candidato que lhe convém e o processamento de seus votos definirá se os brasileiros irão acordar com o pé esquerdo ou com o pé direito no ano seguinte. Mas quando falo em despertar com pé direito ou esquerdo, eu não me refiro à expressão popular de acordar com disposição ou mal-estar. Na verdade, eu me refiro à cara ideológica que as instituições políticas terão. Explico. Se for uma festa das eleições municipais, você poderá acordar diante de uma câmara de vereadores mais socialista (pé esquerdo) ou mais conservadora (pé direito).
A escala ideológica esquerda-direita é uma forma muito comum de se posicionar politicamente, tendo raízes na Assembleia Constituinte Francesa de 1789. Naquela ocasião, decidia-se sobre os limites constitucionais do poder monárquico. Os constituintes que buscavam preservar o poder absoluto do rei localizavam-se nos assentos à direita, enquanto os revolucionários que buscavam o fim da monarquia absolutista sentavam-se à esquerda.
O episódio foi tão marcante, que os termos direita e esquerda tiveram forte penetração no vocabulário político, persistindo até hoje. Contudo, seu sentido se atualizou ao longo dos séculos. Nos dias atuais, o arquétipo da direita se caracteriza pela defesa do mercado como principal forma de alocar recursos, enquanto a família e a igreja também podem desempenhar um papel importante, especialmente no âmbito da assistência social.
Assim, o Estado deveria gerar bem-estar preferencialmente quando essas instituições falharem em fazê-lo. Do lado oposto, o arquétipo de esquerda costuma estar associado a uma postura progressista, e a um papel mais generoso e expansivo do Estado no enfrentamento de desigualdades sociais, isto é, visando uma sociedade mais igualitária e menos dependente do mercado.
A poucos dias de escolhermos nossos vereadores e prefeitos novamente, cabe relembrarmos em que pé estamos atualmente nessa escala. Como, no Brasil, os entes municipais têm poder de implementar suas próprias políticas públicas, a ideologia dos representantes é um assunto importante.
Mas como medir o perfil ideológico de vereadores e prefeitos? Bem, na Ciência Política, nós desenvolvemos vários indicadores para mensurar preferências políticas. Neste artigo, eu utilizo uma classificação de partidos políticos feita através de questionários a experts em política brasileira no ano de 2018. Cada politólogo responde um survey posicionando todos os partidos em uma escala contínua, e a média das respostas torna-se um indicador de ideologia partidária. A medida utilizada aqui varia de zero (extrema-esquerda) a 10 (extrema-direita) e foi compilada pelos pesquisadores Bolognesi, Ribeiro e Codato (2021).
Com a ajuda de dados eleitorais, é também possível identificar o partido de cada prefeito e vereador vitorioso em 2020 e associá-lo a seu respectivo escore ideológico. E com algumas técnicas de georreferenciamento, é possível criarmos até mapas mostrando quais cidades estão mais à esquerda e à direita atualmente.
Na figura, quanto mais vermelho for a cor de um município, mais esquerdista é o partido do prefeito. Os dois municípios mais vermelhos são Ibimirim e Sanharó, nos quais o Partido Comunista do Brasil (PCDOB) elegeu seus prefeitos. A capital do Recife é também ocupada por um partido de esquerda: o Partido Socialista Brasileiro (PSB), porém mais moderado.
Inversamente, a cor azul representa os municípios com prefeitos mais à direita. As dez prefeituras com maior escore nesse espectro são governadas pelo partido Democratas (DEM), que contabiliza 10 municípios. Entre elas: Araçoiaba, Casinhas e Belo Jardim.
Também é possível calcularmos estatísticas mais gerais. A média de escores dos prefeitos é 6.14 em Pernambuco. Em nossa escala, isso significa que a prefeitura pernambucana é tipicamente de centro-direita, o que é muito próximo da média nacional (6.84). Apesar disso, o partido com mais prefeituras é o PSB, que conquistou 30% do total em 2020, o que distoa do cenário nacional, em que o partido direitista MDB lidera. Por sua vez, as legislaturas também estão tipicamente posicionadas na centro-direita, com média de 6.32. Apesar disso, há algumas câmaras pernambucanas dominadas pela esquerda, como é o caso de Granito (PT e PSB) e Sanharó (PT, PSB e PCDOB).
A poucos dias das eleições, este é o panorama pernambucano. Pouco distante do cenário nacional, o estado é tipicamente governado pela centro-direita. Contudo, o peso do PSB é incontestável, haja vista que lidera a maioria das prefeituras. Com João Campos (PSB) à frente das pesquisas na capital, é possível que o partido ganhe maior projeção, tornando nosso mapa mais vermelho. Porém, ficamos no aguardo dos resultados de 2024.
Pedro Marques, Doutorando em Ciência Política

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