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Fernando Haddad e China Miéville, autores que lançaram livros ambiciosos recentemente, partem de lugares bem distintos para abordar o capitalismo de hoje. Um olha para a economia política; o outro, para seus efeitos culturais e imaginários. Nos dois casos, o diagnóstico aponta para um mundo fragmentado.
Em “Capitalismo Superindustrial” (Zahar, R$ 99, 456 págs.), o atual ministro da Fazenda analisa como a incorporação da ciência como fator de produção tornou a inovação e a obtenção de lucro extraordinário permanentes. Segundo Haddad, a inovação levou à fragmentação maior de classes, como aponta a reportagem de Felipe Gutierrez.
Parafraseando Liev Tolstói, ele afirma em sua análise que “todas as classes proprietárias se parecem na felicidade, cada classe não proprietária é infeliz à sua maneira”.
Esse quadro ajuda a entender a leitura feita pelo escritor China Miéville sobre o presente. Ao afirmar que “a barbárie anda vibrante” no mundo, o escritor aponta para um ambiente político e cultural moldado pela desigualdade, no qual o autoritarismo encontra espaço para crescer.
No romance de ficção científica “A Cicatriz” (trad. José Baltazar Pereira Júnior, Boitempo, R$ 119, 528 págs.), Miéville mostra como as distopias espelham uma realidade em que o capitalismo gera riqueza contínua, mas também medo e o vislumbre de um futuro ameaçador. O britânico deu entrevista ao repórter Reinaldo José Lopes.
Acabou de Chegar
“Feito Bestas” (trad. Letícia Mei, Mundaréu, R$ 56, 104 págs.), da francesa Violaine Bérot, acompanha o resgate de uma menina desconhecida da cordilheira dos Pirineus. Narrado por um coro de vozes que depõe à polícia, o livro deixa que o leitor chegue às suas próprias conclusões —tanto sobre as condições que levaram a menina até ali quanto sobre os dilemas de maternidade que surgem ao longo da trama. Segundo o crítico Alex Castro, é um romance impressionantemente amplo e profundo apesar de suas poucas páginas.
“Sepulcros de Caubóis” (trad. Josely Vianna Baptista, Companhia das Letras, R$ 79,90, 192 págs.) reúne três narrativas póstumas e inéditas do celebrado escritor chileno Roberto Bolaño. Os textos heterogêneos e inacabados, como aponta o crítico Élvio Cotrim, soam familiares aos leitores do autor pela repetição de seus traumas. São histórias sobre jovens errantes, destinos trágicos, violência política e a experiência do exílio latino-americano.
“Conversa Infinita” (trad. Julián Fuks, Quina, R$ 67,90, 352 págs.) surgiu do entendimento do psicanalista argentino Mariano Horenstein de que a psicanálise é um campo de fronteira com outros discursos: “A maioria dos psicanalistas que fizeram alguma diferença tem tido uma interlocução com outras disciplinas”, diz em entrevista a Giulia Peruzzo. Horenstein coloca sua visão em prática nas 19 entrevistas que compõem o livro, buscando entender como personalidades da estirpe de Caetano Veloso, Marina Abramovic e Anish Kapoor enxergam a psicanálise.
E mais
O escritor argentino Julio Cortázar terá sua poesia publicada pela primeira vez no Brasil. Uma antologia de seus poemas está sendo traduzida e organizada pela escritora e professora Paloma Vidal para a Companhia das Letras e deve ter cerca de 300 páginas. Segundo o Painel das Letras, o volume ainda não tem um título definido e tem previsão de sair no segundo semestre deste ano.
Há muitos debates em torno dos significados de antissemitismo, mas, como aponta a reportagem de Anna Virginia Balloussier, o fato de ele ainda existir parece indiscutível. Livros recentes de Mark Mazower, professor da Universidade Columbia, e do pesquisador brasileiro Gustavo Binenbojm partem de visões opostas sobre como funciona o preconceito contra judeus e chegam a conclusões próximas: não é um fenômeno do passado e não é exclusivo de um campo político.
Além dos Livros
Depois de “Café com Deus Pai” dominar as vendas de livros no Brasil ao longo dos últimos três anos, o devocional do pastor Junior Rostirola foi desbancado pela série de colorir “Bobbie Goods” no ano passado. Os livros da ilustradora Abbie Goveia ocupam os quatro primeiros lugares do ranking de lançamentos mais vendidos de 2025.
Um temporal de granizo e ventania que assolou São Paulo no começo do mês causou um alagamento grave na editora Reformatório, na zona norte da capital. A estimativa é de que cerca de 30% do estoque tenha sido perdido, com prejuízos avaliados em aproximadamente R$ 60 mil. Em entrevista à Folha, o dono da editora, Marcelo Nocelli, relatou o ocorrido e disse que boa parte dos livros foram salvos pelo shrink, o plástico fino que envolve os exemplares.
A poeta mineira Adélia Prado, de 90 anos, foi internada na última semana após um acidente doméstico. Após uma queda, ela sofreu fraturas no fêmur e lesões no cotovelo e no punho. Prado segue em observação no Hospital São Judas Tadeu, onde passou por duas cirurgias, e tem quadro estável.


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