Em um dia ensolarado, uma menina, sentada entre as pernas de sua avó, tem seu cabelo crespo trançado, enquanto ouve cantigas e memórias que a mais velha conta. Essa é a história de “Trança a Trança”, livro infantil publicado pela Intrínseca no último mês. A obra de Madu Costa, 72, faz do momento entre avó e neta uma oportunidade para que a pequena conheça mais sobre a religiosidade e a ancestralidade da família.
Autora e pedagoga mineira, Madu conta que buscou inspiração na própria infância para escrever a história —quando pequena, ela e suas quatro irmãs tinham os fios crespos trançados pela mãe. Suas memórias se uniram à história do penteado, símbolo de resistência desde a época da colonização, quando mulheres usavam os desenhos formados pelo trançado para comunicar rotas de fuga, como aconteceu na Colômbia, exemplifica ela.
Quando criança, a escritora não gostava de suas tranças. Com o tempo, ela percebeu que o desconforto era causado pelo racismo que sofria na escola e pela tentativa de se encaixar em padrões que negavam a beleza da negritude. “Naquela circunstância, eu via as meninas brancas da escola sempre com seus cabelos soltos ou de rabo de cavalo. Então, a liberdade para mim era ter aquela possibilidade de cabelo solto.”
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Hoje, ela se diz satisfeita ao ver meninos e meninas felizes em usar o cabelo natural, com tranças, dreads e outros penteados. “É lindo onde a gente chegou! As crianças, agora, estão desejando as tranças, porque elas assumiram uma ludicidade, assumiram a tal liberdade que eu buscava.”
Contar histórias que ajudem a fortalecer a autoestima de meninos e meninas negras é um desejo compartilhado pela mineira Ana Paula Sirino, 28. Artista plástica responsável pelas ilustrações do livro, ela cresceu em uma comunidade quilombola e diz ter se sentido muito acolhida pelo texto de “Trança a Trança”. “Foi uma história de muita nostalgia. Quando eu era criança, não chegavam até mim livros como o da Madu.”
A dupla conversou com o Pretos Olhares em uma chamada de vídeo.
Para elas, o livro é uma forma de celebrar memórias e aproximar o olhar de duas mulheres negras de gerações diferentes.
Ter o cabelo trançado por mulheres da família ou de sua comunidade era parte da rotina de Ana Paula. Ao trabalhar no livro, ela conta ter percebido como gestos cotidianos podem representar aspectos importantes da cultura negra, como o cuidado entre gerações. “Sempre vivemos isso, mas a gente não comentava, não tinha nada que mostrasse o quanto essa experiência que a gente vive é especial.”
O processo criativo de Ana Paula também trabalha com a memória. Para criar as ilustrações, ela fotografou cenas inspiradas em suas lembranças e convidou pessoas próximas, que posaram para as imagens.
A artista conta que seu interesse pela pintura surgiu ao encontrar fotos antigas tiradas em sua comunidade, o quilombo do Torra, em Sabinópolis (MG), onde cresceu. Queria pintar para poder reviver e registrar aqueles momentos. Hoje, ela cria as cenas, faz a direção de arte, convida pessoas a posarem e depois fotografa; a partir das imagens ela faz suas pinturas.
As artistas concordam ao dizer que cabelo crespo não cumpre apenas uma função estética, também conta histórias e reafirma identidades. “O branco inventou o racismo e nos desumanizou, nos animalizou. Nós, que somos negras artistas, vamos desmenti-los”, afirma Madu.
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