Escolha do presidente português vai para o segundo turno depois de 40 anos, em sintonia com a cena política polarizada de outros países
JC
Publicado em 20/01/2026 às 0:00
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Os embates políticos de uma cidade, um estado ou um país aparecem, quase sempre, como se travados apenas localmente, de tão arraigados parecem estar na dinâmica dos lugares. De fato, as eleições refletem bastante a história, os problemas e suas alternativas, bem como a tradição de lideranças, não raro de configuração familiar ou oligárquica, de uma área delimitada. E a democracia responde, sobretudo, a demandas locais, mesmo quando a escolha solicitada se dirige ao exercício do poder em âmbito estadual ou nacional: postulantes mais identificados com essas demandas despontam favoritos, e conquistam a preferência do eleitorado, ainda que o posto a ser ocupado exija o deslocamento da moradia para longe, no cumprimento da representação popular em nível não local.
No século 21 – que já galopa a um quarto de sua duração – o processo democrático tem se mostrado um processo de fratura social, especialmente em escala nacional. Nos últimos 25 anos, países como o Brasil, a Argentina, os Estados Unidos, a França, e outros, têm experimentado campanhas marcadas por polarizações radicais, nas quais os votos são mais decididos pela escolha negativa do que pela positiva: escolhe-se o voto impossível de dar, e, por extensão, define-se pela candidatura oposta. Outra característica de tais confrontos, em geral no segundo turno eleitoral, mas já presentes no primeiro turno, é o traçado de linhas de separação entre uma opção em defesa da democracia, e outra pintada como ameaça à democracia, da qual se utiliza como instrumento de chegada ao poder.
No próximo dia 8, será a vez de Portugal, nação com relações históricas e complexas com o Brasil, dar mais um passo no interminável amadurecimento democrático. O primeiro turno eleitoral, no último domingo, mobilizou os portugueses de maneira inédita em 40 anos, com a menor abstenção – e as escolha de candidatos antagônicos para o segundo turno. O que se vê por lá não difere tanto do que se passou por aqui, em 2018, e tende a se repetir, este ano, não somente em solo brasileiro, mas também nos EUA, onde o primeiro ano do retorno de Donald Trump à Casa Branca já deixa os norte-americanos divididos como não estavam há bastante tempo. As eleições de meio de mandato, para governadores e o Congresso, pode definir o futuro de Trump – e do mundo que ele imagina carregar no bolso.
De um lado, o socialista António José Seguro, que declarou: “Jamais serei o presidente de uma parte dos portugueses contra a outra parte”, conclamando “todos os humanistas e progressistas” a se juntarem a ele para “derrotar o extremismo” que “semeia o ódio” em terras lusitanas. Do outro, André Ventura, considerado da ultradireita. Ex-professor e ex-comentarista esportivo, com apenas 42 anos de idade, Ventura se apresenta como “conservador, liberal e nacionalista” assumindo o discurso anti-imigração que domina os debates na Europa há vários anos. Uma agenda fortalecida com Trump em Washington.
O acirramento eleitoral em Portugal é sinal da globalização política que reúne e reduz as pautas, através de polarizações que se repetem. Será bom para a democracia?
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