A uma certa altura da segunda temporada de “The Retrievals”, a narradora Susan Burton se lembra de uma frase recorrente no mundo da medicina: “O que é medido importa”. Pode-se dizer que as duas temporadas da série documental dialogam com esta ideia.
Na primeira, a repórter do New York Times aborda as denúncias de mulheres que não teriam recebido anestesia de forma adequada ao realizarem coleta de óvulos. É daí que vem um primeiro sentido do nome: “retrieval” é o termo em inglês para coleta, mas também significa, em sentido amplo, recuperação. Os casos aconteceram na clínica de fertilização da Universidade Yale em razão de uma enfermeira que roubava os anestésicos para consumo próprio.
Ao resgatar as histórias e traumas sofridos pelas mulheres que passaram por lá, Burton também retrata numa lente ampliada a dor e como ela é ignorada ou negligenciada. Ao fazê-lo, evita tornar a enfermeira uma vilã ou causa única do que ocorreu em Yale; o que se traz à tona é, sobretudo, o problema de uma cultura médica que trata a dor como fenômeno secundário.
A motivação para uma nova temporada surgiu das muitas mensagens recebidas pela jornalista de mulheres contando outras experiências de dor. Burton investiga agora a dor negligenciada em cesarianas e como ela perdura após o parto, afetando inclusive as relações de mulheres com parceiros e filhos.
“Escolhi esse tema por dois motivos: primeiro, acho uma loucura que mulheres sintam dores por cirurgias abdominais como essa; segundo, a dor em cesarianas é um problema que as pessoas estão buscando ativamente resolver”, diz a jornalista.
Se a primeira temporada mostrou a dor como algo que está fora do que se mede, a segunda questiona as próprias formas de medir a dor. O que essas medições são capazes de dizer? Quão adequadas são para comunicar a experiência individual de quem sente? E que efeitos isso tem na relação entre médicos e pacientes?
São esses desafios que as personagens desta temporada lançam à medicina em suas trajetórias para produzirem mudanças. É o caso de Susanna, que, a partir do sofrimento vivenciado no parto de seu filho, decidiu buscar histórias semelhantes.
Descobriu não só muitas outras, mas também que eram dores igualmente ignoradas. Essa coleta serviria de base para a construção de um novo protocolo médico para avaliar e lidar com a dor de pacientes, que envolve desde uma mudança de linguagem da equipe médica até assumir novos pressupostos em cirurgias —como considerar, em primeiro lugar, que uma anestesia não funcionou.
Ao questionarem a objetividade médica, essas histórias também ressoam o vazio de novos jargões desta prática, como “atentar à experiência do paciente” —orientação que deveria estimular uma atenção mais cuidadosa às particularidades, mas que, na prática, só produz formulários anódinos.
Como narradora, Burton enfrenta ela mesma o dilema que atravessa a série: como comunicar a experiência da dor? Pode o outro ser permeável a ela? São recursos diversos que ela mobiliza para isso.
Uma escolha marcante se estabelece desde o começo: Burton convida o ouvinte a perceber a série como se fosse um típico drama médico de ficção, descrevendo movimentos de câmera, cortes, pontos de vista ou sinalizando momentos de ênfase ou tensão.
A maneira como isso é contado —com apenas uma trama elegante de voz e trilha sonora— serve como lembrança da divertida máxima de que o “áudio é um meio muito visual”.
À primeira escuta, esse recurso metalinguístico soa como ironia sobre a recorrência desse tipo de programa, como se, ao evocar esse formato televisivo, a narradora sinalizasse ao público: isso não é uma ficção, mas eu sei que a dramatização é capaz de sensibilizar, e sei que de tanto que isso já foi feito talvez ninguém se sensibilize mais.
Mas, no correr dos episódios, esse ceticismo se dilui. Essas evocações ao gênero de drama médico são antes uma lembrança da força transformadora de disseminar histórias. “As personagens dessa temporada perceberam o poder que histórias têm de carregarem mensagens. Minha reportagem sugere que narrativas podem ser um agente de mudança na medicina tal como um trabalho de pesquisa”, diz Burton.
Num meio em que a performance de quem narra diz tanto do estilo de um produto, decidir que voz assumir diante de um tema como esse é delicado. Burton não se força a uma conversa com o ouvinte e, sem afetação, sustenta um tom ao mesmo tempo grave e sereno.
Ela conta de perto cenas viscerais de salas de cirurgia, descrevendo costelas sendo deslocadas numa paciente em que a anestesia não pegou —e as narra para que seja possível, ao menos, imaginá-las.
Essa alternância entre histórias particulares e um plano mais amplo é feita com tal habilidade que a série parece por vezes um ensaio a muitas vozes sobre a dor e as formas de vivê-la.
“Fazer esta série como podcast é uma forma de dar relevo aos sentimentos daqueles que se elege como personagem”, diz Burton. Ela relembra a força do discurso sobre a dor feito por Susanna numa conferência diante de seus pares e da intensidade com que o público reagiu.
“Daria para transmitir isso no papel? Talvez, mas sem a mesma vivacidade. Como eu estava trabalhando com som, eu passei muito tempo naquela sala com essas vozes. ‘Passar mais tempo com vozes’: essa é talvez uma boa frase de efeito para dizer como um podcast difere de um texto.”
É, talvez também, uma tradução das expectativas das mulheres sobre quem esta série nos conta em relação aos seus médicos.
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