Discurso jurídico, mesmo básico, não mobiliza indignação popular, aprovação cresce e arquivamento do impeachment blinda a governadora no debate.
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As pesquisas mais recentes redesenharam o tabuleiro da disputa estadual em Pernambuco e expuseram um dado objetivo que a retórica eleitoral costuma encobrir. Campanha exige sintonia direta com o instinto do eleitor e leitura correta do humor das ruas. E as ruas são muito mais complexas do que o nosso limitado repertório costuma acreditar.
Entre outubro e fevereiro ocorreu uma inversão clara de expectativas. O prefeito do Recife, João Campos (PSB), que largava em posição confortável, perdeu cinco pontos nas intenções de voto. A governadora Raquel Lyra (PSD) avançou os mesmos cinco. No mesmo intervalo, a aprovação do governo estadual subiu e chegou a 61%.
Os números indicam deslocamento político consistente, resultado de decisões estratégicas bem executadas pelo governo e falhas de cálculo da oposição, principalmente com denúncias e o clima de “escândalo” que foi criado em algumas situações.
Erro de leitura
A estratégia do PSB apostou numa narrativa de “perseguição institucional”. Vídeos, discursos e postagens acusavam a Polícia Civil de agir politicamente contra auxiliares da prefeitura. A iniciativa chegou a expor o próprio prefeito João Campos em gravação e discurso. Um erro estratégico que gera desgaste.
O argumento partia de preocupação com princípios jurídicos legítimos, mas esse argumento fala para um público especializado que se preocupa com direitos fundamentais e não é a maioria da população. Sejamos sinceros, o eleitor médio nem sabe o que são direitos fundamentais e não reage ao debate processual da mesma forma, ele reage ao senso comum.
Diante de investigação, principalmente quando o tema é corrupção, a pergunta do senso comum não é sobre rito, regra ou direitos básicos. A pergunta é desconfiada, mesmo que não seja justa: “por que eles não querem ser investigados? O que querem esconder?”.
Um exemplo disso é a operação Lava Jato. Só quem estava preocupado com os métodos pouco ortodoxos dos promotores e juízes da força-tarefa eram os advogados dos políticos, os políticos, seus familiares e meia dúzia de membros da sociedade civil que se preocupam com a preservação de direitos fundamentais. A população em geral queria mesmo era que todo mundo fosse preso.
No caso da investigação preliminar sobre um secretário municipal, a oposição à Raquel Lyra produziu desconfiança foi sobre si mesma ao reclamar que “estava sendo investigada”, numa época em que a classe política como um todo sofre com a própria credibilidade. Houve ainda a tentativa de chamar o caso de “arapongagem”, numa busca por deixar a gravidade da situação mais palatável ao público.
Outro erro. Se for fazer uma pesquisa, talvez metade da população não saiba o significado dessa palavra, popularizada no Brasil após uma novela da Globo exibida 36 anos atrás.
Psicologia do voto
Campanhas que tentam mobilizar indignação abstrata raramente funcionam. O cidadão comum lida com problemas concretos. Emprego, transporte, saúde, segurança. A tese de violação ao estado democrático de direito exige um nível de engajamento que não corresponde à rotina do eleitorado. Na prática, a narrativa perdeu aderência social. Em vez de desgaste para o governo, houve efeito reverso.
Blindagem política
O episódio do arquivamento de um pedido de impeachment relacionado à fiscalização de uma empresa da família da governadora foi outra boa notícia para Raquel na semana.
Aliás, o presidente da Assembleia Legislativa, Álvaro Porto (PSDB) deveria ser reconhecido pelo Palácio como alguém que ajudou muito o Palácio na última quinta-feira (05), mesmo sendo oposição, quando poderia ter complicado as coisas. É justo admitir de forma sincera que ele pacificou o tema ao enterrar o caso em nome da preservação institucional e jurídica. Bom sinal para este 2026.
O arquivamento na Alepe, conduzido por um presidente alinhado a João Campos, virou um salvo-conduto institucional para Raquel. A mensagem construída será que “se nem adversários encontraram base para levar o caso adiante, ele é frágil”.
A partir daí, qualquer tentativa de reabrir o assunto na campanha vai soar como “acusação vazia sobre algo esclarecido”. Lyra ganhou uma espécie de vacina preventiva e resposta para os debates.
Vantagem tática
Nada disso, claro, define a eleição com antecedência. A disputa em Pernambuco continua competitiva e polarizada. Campos mantém vantagem, recall elevado e estrutura política robusta. Mas o momento favorece o Palácio por erro estratégico dos socialistas.
A governadora ampliou aprovação, reduziu vulnerabilidades e vai obrigar a oposição a recalibrar o discurso. Isso se a oposição conseguir admitir que errou.





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