Peça inspirada em música de Gilberto Gil politiza clássico ‘Domingo no Parque’

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Peça inspirada em música de Gilberto Gil politiza clássico ‘Domingo no Parque’


Há 30 anos, o diretor Alexandre Reinecke recebeu uma ligação de Gilberto Gil e achou que era trote. O próprio Reinecke havia dado um jeito do texto com a adaptação teatral da canção “Domingo no Parque” chegar às mãos do cantor e compositor, mas ficou surpreso com o telefonema.

Gil, após confirmar a identidade, disse que havia gostado da dramaturgia e que valia a pena viabilizar a montagem. “Passaram-se 30 anos porque foi muito difícil”, diz o escritor e diretor, ao estrear em São Paulo o musical inspirado livremente em um dos marcos do movimento tropicalista.

A adaptação teatral politiza a história de João, José e Juliana, que Gil contou em formato fragmentado, como um patchwork com elementos-chave como o parque, a capoeira, a roda-gigante, o sorvete e a faca.

No musical, Juliana (Rebeca Jamir) é cantora e ativista contra a ditadura militar, no início da década de 1970, tem um filho com João (Guilherme SIlva), que cria sozinha, e inicia um romance com José (Alan Rocha), o que provoca o conflito e a tragédia entre os dois amigos.

Com direção musical de Bem Gil, filho do cantor e compositor, o espetáculo tem elenco majoritariamente negro, trilha sonora com 20 músicas de Gilberto Gil e artistas como Carlos Lyra, Dominguinhos e Anastácia, Dorival Caymmi, Jorge Ben Jor, Chico Buarque e Tom Jobim.

Uma das coreografias é embalada pela “Canção do Subdesenvolvido”, de Lyra e Chico de Assis, de 1961, parte da trilha sonora da peça “Um Americano em Brasília”, de Assis e Nelson Lins e Barros.

“Eu ouvia a minha mãe cantando nas festas. Ela cantava e fazia toda a dramaticidade, as brincadeiras, as ironias da música“, conta Reinecke, ao lembrar a canção, que já apareceu também em trecho da série “Anos Rebeldes”, de Gilberto Braga.

Em outro momento do musical, “Cálice” é entoada em tom dramático e lembra a censura que a música de Gil e Chico Buarque sofreu durante os anos de repressão.

A advogada Ophelia Amorim Reinecke, de 87 anos, mãe do diretor, feminista, presa após o golpe militar, divorciada e defensora da Liga Camponesa da Paraíba, é uma das inspirações para a dramaturgia. “Tem um pouco da minha vida nas histórias que coloquei nos personagens”, afirma Reinecke.

Apaixonado por capoeira, ele queria interpretar João há três décadas. O tempo passou, ele se consolidou na direção e, com “Domingo no Parque”, chega à 60ª montagem teatral. “O país mudou, e este é o momento”, diz.

O espetáculo marca ainda a estreia de Bem Gil no teatro. “Tem um frescor por ser a primeira vez nesse ambiente contagiante”, afirma. Músico e produtor, ele gostou da experiência de contribuir com o entrelaçamento da trilha sonora com a parte cênica da montagem.

Bem nasceu em 1985, quase 20 anos após a composição de “Domingo no Parque”, canção apresentada pela primeira vez no Festival da Record em 1967. Conta que a relação com a música é baseada no fato de ela ser, até hoje, parte do repertório dos shows do pai, em que ele atua como músico e produtor.

“Há alguns anos tenho a oportunidade de executá-la em diferentes formatos. Ela é bem emblemática na última turnê dele”, diz, referindo-se a “Tempo Rei”, série de shows em que Gil se despede dos grandes palcos.

Quando leu o texto de Reinecke, o diretor musical teve a sensação de intimidade com os personagens e os cenários de Salvador, onde mora com a mulher, a cantora Mãeana, e dois filhos.

“Domingo no Parque” está na vida da atriz Rebeca Jamir desde a infância —a mãe cantava essa e outras canções e falava sobre as histórias por trás de cada obra. “Essa música sempre pareceu para mim uma peça teatral. Quando soube sobre o musical, fiquei muito emocionada, pensando que na minha cabeça de criança já era uma peça de teatro, através da voz da minha mãe”.

Guilherme Silva, o João do espetáculo, já havia sido convidado para uma encenação de “Domingo no Parque” em Salvador, sua cidade natal, em uma produção de teatro de grupo. A agenda de trabalho impediu a participação e a história dos capoeiristas ficou em seu imaginário. “Na aula de prosódia, foi a primeira vez que me senti plenamente contemplado”, conta, sobre o sotaque baiano que marca a produção.

Os ensaios fizeram ressurgir em Alan Rocha, o José, o desejo de aprender a jogar capoeira e provocaram um encontro com o estilo usado por Gil na composição. “No meu mundo de compositor, tenho canções nesse lugar de narrador. Gil é uma grande referência e suas obras se fundem entre narração, abstração, poesia e muito mais.”

Além de Juliana, o musical tem outro personagem feminino destacado, Juci, com quem João também tem um filho. A personagem vive a solidão de um casamento em que o marido é distante. Ela ajuda a montagem a abordar questões atuais do enfrentamento das mulheres ao machismo persistente.

Badu Morais, a intérprete de Juci, canta músicas de Gil desde os 16 anos e também sempre imaginou “Domingo no Parque” como o roteiro de uma encenação. “Olhar para ‘Domingo no Parque’ hoje é refletir sobre um Brasil profundo, lúdico e trágico. É saudar também a genialidade de Gilberto Gil”, afirma.



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