Peça em libras e português convida público a refletir sobre os corpos que amamos

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp
Peça em libras e português convida público a refletir sobre os corpos que amamos


Quem merece receber amor? Você recebe afeto? Tem seu nome respeitado? Essas são algumas das perguntas apresentadas no espetáculo “Oz”, em cartaz no Sesc Vila Mariana, em São Paulo, até 26 de junho. A peça convida o público a uma conversa afetuosa na cozinha de um casal formado por um homem surdo e uma mulher ouvinte.

A prosa é bilíngue —em libras e português. O público se depara com o ator, poeta e slammer Edinho Santos, que inicia sua fala na linguagem de sinais. O texto é traduzido para o português por uma especialista posicionada à direita do palco.

Ao fundo, a mulher do personagem, interpretada pela atriz Letícia Calvosa, corta cenouras. Ele então se junta a ela para ajudar com o preparo de um bolo e compartilhar o que debatia com a plateia.

Além das expressões corporais e gestos, o casal se comunica por meio da música. Dançam juntos ao som de uma melodia cheia de graves —cuja baixa frequência pode ser percebida por pessoas com deficiência auditiva. Conforme a história avança, a sala vai sendo permeada pelo aroma do bolo, que já assa no forno, e de café.

Há momentos no espetáculo em que a interação do ator com o público não tem tradução. “Estamos, na verdade, construindo uma linguagem nova, onde libras, som, silêncio, vibração e gesto convivem de forma orgânica. É como se disséssemos: todo mundo pode acessar, todo mundo pode sentir. Isso é muito forte”, diz Santos.

O espetáculo da companhia Aquilombamento Ficha Preta tem roteiro de Aline Mohamad e direção de Rodrigo França e Tainara Cerqueira. A roteirista conta que a peça busca romper com a crença de que apenas determinados corpos estão predestinados ao amor. Por isso, apresenta a negritude e a deficiência dos personagens a partir do afeto, negando a narrativa de sofrimento e violência associada a esses corpos.

“Embora a gente entenda que o Brasil ainda é um país muito racista e que o nosso povo ainda está tombando nas esquinas, a gente também precisa ver beleza, se alimentar dessa beleza e levá-la para a nossa gente. Isso também é revolucionário”, afirma Cerqueira.

Outra história que permeia a trama é a de Zeneb. Tia da roteirista e surda, ela viveu cercada pelo amor da família, mas não chegou a viver uma experiência afetiva e sexual com outra pessoa.

“Quando iniciamos as pesquisas para o ‘Oz’, eu tinha acabado de perder minha madrinha e percebi que nossa família sempre a colocou em uma redoma. Ela nunca viveu a sexualidade por esse capacitismo que a gente tinha e nem percebia, porque não era discutido”, conta Mohamad.

Experiências vividas por Zeneb aparecem na obra por meio do relato dos personagens e em forma de reflexo, com a relação do casal rompendo esse ciclo. A personagem de Letícia conta, por exemplo, que a tia gostava de assistir a filmes pornôs, tomar uma cervejinha e frequentar uma boa roda de samba, mas não deixava de ir à igreja para socializar.

Para Calvosa, fazer parte do espetáculo foi um convite à escuta. “Edinho nos ensinou a escutar com os olhos. Eu já tinha um desejo de aprender libras, mas só agora entendi a complexidade da língua. Trata-se de conhecer uma nova cultura e toda uma nova comunidade, seus hábitos e gírias”, afirma. A artista decidiu aprender a linguagem de sinais para se comunicar com o colega e interpretar sua personagem.

De acordo com ela, a peça provoca pessoas ouvintes a refletirem sobre o que é de fato escutar alguém. “É linda a forma como o espetáculo trata a surdez: não como um problema, mas como parte da complexidade de um personagem. É uma característica apenas, assim como o fato de sermos negros. Mas a história segue, não é sobre isso. É sobre o amor e como ele se dá também entre nós.”

Um quarto personagem na obra é a cozinha, que interage com os personagens e o público por meio das cores de seus objetos, dos sons e dos cheiros. “A cozinha tem um significado diferente para as culturas indígenas e africanas. Não é um lugar de subalternidade, é um espaço nobre, tão importante quanto a sala de estar. Receber o público nesse espaço para compartilhar memórias é um acréscimo à nossa história de afeto”, afirma França.

Ao final da apresentação, o público é convidado a desfrutar do café e do bolo de cenoura preparados durante a peça.



Source link

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp

Nunca perca uma notícia importante

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *