São Paulo
Na canção “Vaca Profana”, imortalizada na voz de Gal Costa, Caetano Veloso escreveu: “São Paulo é como o mundo todo”. O verso ajuda a compreender melhor a capital paulista, que completa 472 anos neste domingo (25). Nos parques públicos, sobretudo nos fins de semana, essa mistura se mostra sem esforço: na convivência de línguas, sotaques e hábitos —e na fauna que divide trilhas e gramados com a cidade.
Em um refúgio verde que rompe a aridez nos extremos da zona leste, grupos de venezuelanos jogam beisebol, entrelaçando os gestos de sua terra com o movimento frenético da metrópole. Na semana seguinte, o mesmo campo é tomado por uma partida de críquete: um time de jogadores árabes muda as regras da dispouta e, com elas, o uso do espaço público.
Estamos no Parque Ecológico do Tietê, onde o sotaque nordestino vira trilha sonora, enquanto uma família de quatis cruza os caminhos de bicicletas e corredores apressados. Inabaláveis, macacos-pregos observam a cena do alto das copas, sentinelas do parque —onde também vivem savacus, biguás e lavadeiras-mascaradas. O parque, que tem como principal função servir de área de várzea do rio que lhe dá nome, registra 296 espécies de aves, 24 mamíferos, 21 répteis e 8 anfíbios.
Mais adiante, à beira do lago, a comunidade boliviana se reúne e espera a vez no trenzinho e no pedalinho. As capivaras preferem a sombra e só aparecem quando o sol começa a baixar, com os frequentadores já em retirada.
Vizinho à estação de trem Engenheiro Goulart, o parque quase não fecha, abre das 6h às 17h. Em tempos ensolarados de descanso, chega a receber 35 mil visitantes em um único dia.
Logo pela manhã, num casarão estilo colonial, dos anos 1970, monitores recebem o público com um exemplar de bicho-pau —inseto que se vale da camuflagem para desaparecer aos olhos na natureza. É dali que partem os passeios monitorados pelo parque, em percursos de 5 km a 9 km.
O casarão de onde partem os passeios monitorados pelo Parque Ecológico do Tietê
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Pedro Affonso/Folhapress
Não é permitido nadar no rio nem alimentar seus moradores nativos —os bichos. A entrada de pets também é proibida.
Na área de apoio, tem nove quiosques de churrasco, alugados com antecedência pelo email pet@sp.gov.br, perto da entrada e às margens do lago. E, no centrinho, o roteiro ganha cara de feira: vai de bichinhos de pelúcia a máquinas de bolhinhas de sabão.
A comida acompanha o movimento: acarajé custa entre R$ 20 e R$ 25. Hit do pedaço, a salchipapa —batata frita com salsicha e molhos— sai de R$ 25 a R$ 32. Num calor da moléstia, na casa dos 35°C, o baião de dois vem acompanhado de espeto de churrasco ou de pernil. A porção menor sai por R$ 40; a grande, R$ 75.
A trilha sonora nas tardes do parque também muda de ponto a ponto. Num canto, toca “Shiny Happy People”, da banda americana R.E.M.; no campinho, a pelada corre solta com “Onde Anda Meu Amor”, na voz da piauiense Laércia Dantas —a mesma do bordão que virou meme: “Garçom, tem Pitú?”
A cerca de 3 km dali, no Parque Linear Tiquatira, ambulantes surgem de todos os lados, incluindo vendedores da cachaça pernambucana. O parque é resultado do esforço do administrador aposentado Hélio da Silva, que plantou cerca de 40 mil árvores, de 170 espécies da mata atlântica, para recuperar uma área antes degradada e subutilizada às margens do córrego que dá nome ao parque, na zona leste.
O lugar, porém, ainda pede um olhar mais atento do poder público. O córrego exala cheiro de esgoto, e os banheiros públicos se tornam inabitáveis nos fins de semana. Principal responsável pela gestão da maioria dos parques, a Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente informa que está prevista a contratação de um projeto executivo para a requalificação completa do parque.
Saindo da zona leste e subindo a cidade, no mesmo estilo de parque linear, o Córrego do Bispo oferece outro retrato. Com 33 mil mudas de 120 espécies da mata atlântica ainda em crescimento, é um raro exemplo de limpeza e organização.
As trilhas ainda esperam o tempo das copas —falta sombra, sobra sol— e o gestor João Póvoa, 66, prevê que a portaria 3, sob as pilastras do Rodoanel Norte, deva ser aberta ao público no ano que vem. É ali que está o principal atrativo: uma área conectada à floresta da Serra da Cantareira, com nascente que abastece dois lagos, uma trilha com jabuticabeiras centenárias e a ruína de uma capela da antiga Fazenda do Córrego do Bispo, do século 19, onde funcionava um seminário católico.
Naquele naco verde, um sistema de monitoramento com câmeras e sensores vem registrando a retomada de espécies da fauna local. Já na parte aberta aos frequentadores, uma trilha de 1,5 km conduz a um mirante, com vista para a Cantareira e para a zona norte da metrópole.
Na outra ponta do maior município brasileiro, nos extremos da capital, quatro parques naturais —criados como compensação ambiental pelo trecho sul do Rodoanel— formam um corredor ecológico. Ele se liga a outras áreas protegidas e a unidades de conservação vizinhas, como as APAs (Área de Proteção Ambiental), até se conectar ao Parque Estadual da Serra do Mar, explica o biólogo Kleber Evangelista Rodrigues, 42, gestor do Parque Natural Municipal Varginha.
Para ter uma ideia da dimensão, esses quatro parques somam uma área equivalente a cerca de 14 vezes a do Ibirapuera. Ao contrário dos parques urbanos, entretanto, os naturais são unidades de conservação de proteção integral, voltadas à educação ambiental, preservação de ecossistemas, flora e fauna. Eles permitem a visitação, a prática de moutain bike e o ecoturismo, mas sob regras mais restritivas, para reduzir o impacto e proteger o ambiente.
Um dos que mais chamam a atenção é o Parque Natural Municipal Bororé, na “ilha” de mesmo nome —na prática, uma península—, às margens da Billings. O Bororé é um dos bairros mais peculiares de São Paulo, marcado por seu antigo isolamento: o acesso principal se dá por uma balsa que cruza a represa.
Nesses parques naturais, brinquedos e mesas de piquenique são “naturalizados”, ou seja, são feitos com madeira reaproveitada de cortes e podas.
Nas quatro trilhas do Bororé, quem chega pode avistar gavião-caramujeiro, garça-branca-grande e tucano-de-bico-verde. Mais raro —sem ser improvável— é o sauá, macaco de porte médio, de pelagem longa e macia. Rodrigues lembra que a equipe de monitores do parque já registrou até a passagem de anta por ali.
O Bororé fica a cerca de 25 km do centro de São Paulo. Dá para chegar de transporte público: há ônibus que saem do Terminal Grajaú e atravessam a balsa rumo à ilha, ou linhas a partir do Terminal Varginha, por estrada de terra, com desembarque a cerca de 800 metros da sede do parque.
Mais difícil de acessar de transporte público é o Parque Natural Municipal Jaceguava, que, como os demais parques naturais, tem estacionamento gratuito. Ele tem uma particularidade: é o único da capital onde se pode ver, tão perto da represa Guarapiranga, dois dos principais biomas do país —mata atlântica e cerrado. Do alto da torre de observação de aves, a 12 m do chão, a transição fica nítida.
Tanto no Bororé quanto no Jaceguava as trilhas são autoguiadas. Com monitores, porém, o passeio ganha outra camada: binóculos e lunetas ajudam a observar a fauna, e as orientações de educação ambiental ampliam o olhar sobre a flora. E vale a atenção ao caminho —nesta época do ano, é comum a presença de jararacas.
Pouco importa. As trilhas dos parques naturais são “apaixonantes”, nas palavras da aposentada Lucia Silva. Aos 70 anos, a cearense de Juazeiro do Norte diz que os caminhos oferecidos pelo Bororé, contudo, são mais planos e agradáveis por incluírem trechos à beira da Billings. Já a pernambucana Maria do Carmo Mendes dos Santos, 67, de Aliança, prefere a “exuberância natural do Jaceguava”.
Entre esses trilheiros que escolhem São Paulo como morada, há um ponto de acordo: percorrer os parques, sobretudo os naturais, é ver, cada um à sua maneira, aparecerem também “tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva”, como canta Caetano em “Sampa”, canção-hino não oficial da maior cidade da América do Sul.




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