Numa tarde de sol a pino, os escritores Marcelo Rubens Paiva e Martha Nowill concentraram grande parte do público da Feira do Livro sob e nos entornos da tenda do palco Petrobras nesta sexta-feira (20). A plateia mais cheia desse feriado acompanhou a conversa do autor de “Ainda Estou Aqui” e da atriz com a jornalista Micheline Alves, que atuou como mediadora.
Amigos de longa data, Nowill e Paiva leram trechos dos livros um do outro. Ela apresentava seu estreante “Coisas Importantes Também Serão Esquecidas” e ele seu “O Novo Agora”, títulos sobre suas recentes maternidade e paternidade. Os autores falaram sobre ter filhos na pandemia, compartilharam pérolas dos pequenos e suas experiências durante o tão temido parto.
“Nem Sylvia Plath, nem Jane Austen, nem Lygia Fagundes Telles escreveram sobre isso”, apontou Paiva, para ressaltar que Nowill escreveu. Com o livro da atriz em mãos, ele arrancou risos da plateia ao ler os medos de uma mãe prestes a parir, receios que um pai não carrega.
Mais risadas ecoaram com a história da participação de Paiva no parto humanizado de sua ex-mulher. “Nem sei se posso falar essas intimidades do parto, mas está no livro, então posso falar”, disse.
“O Marcelo tem o relato do parto do ponto de vista dele e eu tenho o meu”, apontou Nowill. Ela afirmou ter visto muitas coisas parecidas entre os dois, algo de que Paiva disse discordar. “Para mim é muito diferente, a sua é a visão de dentro e a minha é de fora.”
Em seu livro, Paiva se preocupou em destacar o papel da mãe, assim como fez no celebrado “Ainda Estou Aqui”. “No livro eu reconheci o heroísmo da minha mãe décadas depois, porque nesse mundo machista meu pai era o herói quando, na verdade, minha mãe fez tudo”.
A menção a Eunice Paiva arrancou aplausos da plateia lotada. “Em ‘O Novo Agora’ eu reconheci novamente o papel da mãe, porque o pai não faz nada.”
No começo do dia, o auditório Armando Nogueira testemunhou um encontro de editores. O jornalista Vitor Pamplona mediou uma conversa entre Jiro Takahashi e Cecília Arbolave.
Takahashi está desde a “antiguidade”, como ele mesmo diz, no mercado literário brasileiro. Com mais de 50 anos de carreira, ele contou do processo de criação da famosa coleção Vaga-Lume. Já Arbolave é um nome importante no mercado de livros independentes hoje, à frente de projetos como a editora Lote 42 e a Banca Tatuí.
Reunidos na mesa “Para Gostar de Ler” —título que faz referência a uma das coleções idealizadas por Takahashi nos anos 1970—, os editores falaram da importância e do prazer da leitura.
Nascido em uma pequena cidade que não tinha nem uma banca, Takahashi contou que as pessoas só conseguiam ler quando traziam livros e gibis de fora. Mas hoje a realidade é diferente. O obstáculo agora, como apontou Arbolave, é escolher um livro em meio a tantas distrações.
“As big techs ficam em outro nível da vida enquanto nós ficamos no chão da resistência”, disse Takahashi. “A gente está com estilete enquanto eles estão com a motosserra.”
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Entre as facilidades tecnológicas de hoje, o desafio dos editores é mostrar que ler e manusear um livro é divertido. Arbolave faz isso pensando na forma, além do conteúdo. “O cuidado com o lúdico e a materialidade tem que ser para todas as idades”, afirma a editora, que inclui em seu catálogo livros com os mais diversos formatos, tintas e texturas.
Em seguida, Humberto Werneck e Luís Henrique Pellanda se reuniram para um papo de cronistas mediado pelo jornalista Ruan de Sousa Gabriel.
Esse gênero é tipicamente associado ao Brasil, disse Werneck, mas “veio da França e se adaptou muito bem ao nosso país”. “Eu comparo com o futebol, que chegou aqui, ainda sem a cintura brasileira, trazido da Inglaterra por Charles Miller”, que dá nome à praça onde aconteceu a conversa.
“No Brasil, existe uma ideia de que quem não lê é burro e que quem lê é melhor. Mas ninguém está lendo de verdade, nem mesmo as elites”, afirmou Pellanda. Segundo ele, a crônica chegou aos brasileiros como “um recurso para entregar literatura para um público não habituado a ler”.
A mesa com a psicanalista e escritora Vera Iaconelli, promovida pela Folha no Tablado Mário de Andrade, ficou lotada no começo da tarde. Muitas pessoas acompanharam a conversa de pé ou sentadas no chão. Mediado pela jornalista Anna Virgínia Balloussier, o encontro marcou a apresentação de “Análise”, novo livro de Iaconelli.
A obra parte da trajetória da autora como analisanda e propõe uma reflexão crítica sobre o papel da psicanálise no Brasil. “O processo de analisar a própria existência nunca acaba”, afirmou. “O destino do fim da minha análise foi escrever esse livro.”
Ao longo da conversa, ela enfatizou que o processo analítico exige envolvimento e responsabilidade. “Análise não é Procon. Uma análise só começa quando a pessoa se implica”, disse, destacando a importância de reconhecer o próprio papel no divã. “O analisando precisa enxergar seu envolvimento naquilo sobre o que se queixa”, disse ela.
Segundo a autora, o sofrimento e a angústia costumam ser os principais motivadores para iniciar uma análise. Mas, longe de serem apenas obstáculos, esses sentimentos podem operar como forças propulsoras. “Sem sofrimento, não há o prazer nem o desejo de coisas novas”, afirmou, ressaltando o papel fundamental do mal-estar como motor de transformação psíquica.
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