O otimismo da razão produz monstros, não só o sono, como pintou Francisco de Goya (1746-1828). Como não perceber isso? Em se tratando do sapiens, o pessimismo é uma forma de contenção da loucura estrutural que atravessa essa espécie infeliz. Na modernidade, o pessimismo é um imperativo categórico.
Só os pessimistas verão a Deus. Basta olhar para o ridículo que é ter feito do mundo um resort da Disney para se perceber a catástrofe que é o otimismo moderno.
Como bem disse o historiador Marc Bloch (1886-1944) na sua obra capital “La Société Féodale”, os medievais não padeciam da obsessão pelo futuro grandioso —como padecem os modernos— porque se viam como a decadência de Roma e as últimas gerações de permanência do homem no Ser.
Quem poderia imaginar que um traço histórico de caráter como este seria um dia uma virtude? Pois eu tenho certeza de que é. Mas, a causa dessa crença idiota no futuro grandioso —que não passa de pura vaidade— é o otimismo da razão, essa besta fera que teimamos em não dar nome.
Deus no Gênesis nos atribuiu a tarefa de dar nomes às coisas, portanto, quando não o fazemos, pecamos. Eis um novo pecado capital: a recusa de dar nome às coisas. O otimismo da razão produz monstros, e um deles é nos impedir de dar nomes às coisas.
Os iluministas franceses —e o otimismo burguês dos negócios— são diretamente responsáveis por esse sono da razão acerca de seus próprios limites, como se Blaise Pascal no século 17 não tivesse dito que nada é mais racional do que saber dos limites da própria razão. Um dos maiores monstros produzidos pelo sono da razão é o próprio racionalismo que, por sua vez, alimenta a natural onipotência da espécie que vê a si mesma como dona do mundo. O planeta, com ou sem matriz fóssil, poderá eliminar o Homo sapiens, como se este fosse pura poeira cobrindo, temporariamente, sua superfície.
A natureza íntima dessa máquina de produzir monstros na herança iluminista está, justamente, na crença de que a moral pode ser essencialmente racional, a política pode ser essencialmente racional, e que a educação repousaria sobre um pressuposto racionalista acerca da natureza humana.
Jean-Jacques Rousseau, o grande vaidoso, segundo Edmund Burke, ambos viveram no século 18, já preconizara, para o orgulho desmesurado do novo homem, que somos naturalmente bons, bastando mudarmos a sociedade. Este pressuposto já é, ele mesmo, um dos primeiros monstros produzidos pela vaidade humana instalada na razão moderna.
Um dos monstros desse otimismo não é só a desgraça do progresso ancorado na matriz fóssil produzindo estragos profundos no mundo, mas, também, e acima de tudo, a afirmação de que, com a invenção de matrizes energéticas limpas, conseguiremos garantir a realização dos desejos humanos sem fim.
A autopercepção de muitos, de que carregam em si a centelha da salvação do mundo porque seriam corretamente informados, é um desses monstros. Sua práxis gera deformações de caráter e novas formas de exploração do planeta a partir da farsa dos concílios ambientais enquanto, atrás do palco, quase todo mundo continua contando as gotas do petróleo jorrando.
Mas um dos maiores monstros da razão otimista é a negação sistemática de que a espécie seja essencialmente louca, sendo um dos seus maiores delírios, o evangelho otimista em si.
A miséria da cultura se manifesta tanto na banalidade de produtos para consumo quanto nas obsessões nichadas das militâncias políticas. O fato de não percebermos que quanto mais se repete um conjunto de ideias, mais cegos ficamos já é uma monstruosidade. Já nos dias após a irrupção do monstro revolucionário francês, o Conde Joseph de Maistre (1753-1821), apontava, a partir das suas crenças religiosas profundas, o parto desse otimismo da razão na política e na filosofia.
“Considerações Sobre a França”, uma das suas obras capitais, existe em português. Sei que talvez alguém sopre no seu ouvido que ele foi um grande reacionário. De fato, o foi. Mas como o filósofo Isaiah Berlin no século 20 deixou claro, deixe esses sopros para lá e veja o que ele escreveu.
De Maistre viu a grande sombra –e a infame superficialidade analítica– que pairava sobre um homem que se disse plenamente capaz de refazer o mundo, e a si mesmo, a partir do zero: “Ele não sabe o que quer; ele não quer o que ele quer; ele quer querer; ele vê dentro de si mesmo algo que não é ele mesmo e que é mais forte do que ele mesmo.” Ninguém no século 21 pode negar esse vaticínio psíquico.
Há que se perder a esperança na modernidade para despertar desse sono que produz monstros.





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