Opinião – Veny Santos: Quando fardados brincam de ‘polícia e ladrão’, alguém sempre morre

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Opinião – Veny Santos: Quando fardados brincam de ‘polícia e ladrão’, alguém sempre morre


Na rua, ninguém morria. No máximo, joelho ralado, tampão do dedão arrancado. Quem queria ser polícia? Quem queria ser ladrão? Na memória da infância sobrevivida, geral preferia fugir e sair vivo do que caçar e terminar sem fôlego. Ainda assim, sempre tinha um. Sempre tem um.

Encurrala o ligeiro. Ele consegue deslizar pela parede e correr por debaixo de seus braços abertos. Enquanto observa para onde vai o outro, deixa três passarem livremente. Eles riem, ele fecha a cara. Pensa em ir na direção do mais lento. Parece emboscada. Ao se aproximar, percebe que todos vão em sua direção, atiçando seu instinto e fazendo com que tente agarrar qualquer um dos mil braços a desafiar sua visão. A tarefa não é fácil, mas é dele. Sempre ele, sempre um.

Quando finalmente consegue marcar o alvo, aponta o indicador, dobra o polegar, recua o do meio, anelar e mindinho para dentro da palma e grita: “Parado! Preso!”. Toca, paralisa e prende, mas não mata. Na rua, ninguém morria ainda.

Enquanto o imaginário se desenvolvia em contexto de guerra, inocência e perigo corriam um atrás do outro. A brincadeira acaba, o tempo passa e o assunto fica sério. Sai a fantasia, entra a realidade. Nasce o policial, padece o nem sempre ladrão. É complexo. Os papéis podem se confundir, e quem deveria proteger com maturidade infantiliza a ameaça porvir.

Como já escrito nesta coluna, o pobre não deseja morrer nas mãos dos agentes de segurança. Ele quer segurança pública. Quer, em público, sentir que não terá os bens materiais roubados por assaltantes, o corpo violado por abusadores e a vida ceifada pelos terroristas de Estado que se escondem atrás do distintivo. Distintivo este que, atualmente, pouco distingue a farda que pratica o mal daquela que bem serve.

Quem promove a barbárie banaliza o horror a ponto de tratá-lo com inexorável indiferença. No âmbito político, parece virar discurso a traduzir tamanha frieza como algo justificável. Se acharem ruim e denunciarem, a máxima é invocada: “o raio que o parta”, “não tô nem aí”. Crianças morrem pelas balas de gente treinada e nada há de banal neste fato. Absolutamente nada.

Há quem chame de “erro emocional” suposta tentativa de homicídio. Acredita, o adulto, que está brincando de “polícia e ladrão”? Confunde-se a ponto de trocar as leis pelo “Parado! Preso” e jogar da ponte o outro? Das questões da mente cuida a psicologia. Das do crime as leis.

“Jesus no Mundo das Maravilhas”, documentário de 2007 dirigido por Newton Cannito, é retrato importante de uma realidade que perdura. Mostra o lado de quem mata e dos que ficam sem o morto. Revela o que há, em muito, por trás do uniforme: sujeitos que também sofrem, possuem seus medos e permitem ao poder subir à cabeça. Consequentemente, sem a devida condução de quem deveria lhes direcionar para a boa execução dos trabalhos, são instigados à violência que os encoleriza e leva à insubordinação.

Na rua, muita gente morre. No mínimo, mata-leão, corpo ralado no chão, outro arremessado ao rio, 111 tiros para fuzilar cinco futuros. Não são todos, sabe-se, mas sempre um. Sempre um a achar graça em, sendo adulto, fabular seu próprio “polícia e ladrão”. Não tem graça. Não é brincadeira. Nunca será.


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