Os domingos ditavam o quão difícil seria a semana porvir na escola. Isso porque um programa de hipotético humor engatilhava as mentes de jovens com dezenas de novos apelidos e xingamentos disfarçados de brincadeira. De puro —cinicamente autodeclarado inocente— entretenimento.
O pânico se instalava em quem, já na segunda-feira, viria a ter o nome próprio tomado de assalto pelo disparo de apelidos e ofensas que penetravam carne e mente como balas e lá ficavam envenenando gente que do chumbo grosso da frágil vida há pouco parida provara desde a infância.
Há quem cace com arma. Há quem cace com a boca.
Medo no rosto de uns, riso nos lábios de outros. Os caninos intimidavam enquanto a gargalhada reunia a matilha. No recreio, caçadores e caças. E quem, hoje, importa-se com o que sente a presa? O que havia na mente dos humilhados quando a piada que alegrava os de comportamento cinantrópico lhes secava o sangue nas veias? Um retrato textual pode contribuir para a composição de tal cena degradante.
Disparava o coração do jovem. No dia anterior, ele assistiu ao programa de TV que ditaria o quão ruim seriam os próximos cinco dias de aula. Já sabia do que iriam lhe chamar, de como tocariam seu corpo, violando sua identidade e integridade física. Piada contra minorias sociais, estereotipação e o início da perseguição à liberdade de ser pela liberdade de ofender. Desumanização covarde. Antes de subir para a sala, um grupo já apontava e começava a reproduzir os mesmos termos e frases ditos no dia anterior, em rede nacional, na sala de casa, com toda a família reunida, aprazendo-se e escancarando as presas.
Depois do medo, da fuga sem chance de esquiva, do ego incapaz de equilibrar o íntimo do eu e a intimação do outro, uma breve morte. Desconhece-se, no vácuo de si mesmo, qualquer valor que possa preencher a centrífuga sensação de que não se tem mais direito ao reconhecimento daquilo que se é. Questiona-se, o cadáver que não ri: “onde está a graça nisso?”. Enquanto abocanham seu jeito de andar, vestir, falar, correr, sentar, querer e não querer, só resta a sensação de que não há mais unidade em sua existência. Aos pedaços, estilhaça-se no bucho do outro —farto da breve morte a nutrir seu instinto violento.
Ao retornar de mais um óbito diário ou se encolhia, ou atacava num ato de desespero. Em certa realidade não tão distante, nos cantos que ninguém via, uma cadeirada, soco no olho ou chute no estômago parecia ser o último pulso de vida a vir de alguém que não suportava mais o sarro e a surra. Infelizmente, ao reagir assim, falecia novamente, pois a agressividade nunca lhe caiu bem. Morria um pouco para não morrer mais.
A risada envolve os caninos com o rosnar da ameaça. Um específico tipo de humor dá aos tarados por violência contra vítimas de preconceito o pano para conter a baba de ferocidade.
Sem focinheira, supostos humoristas vociferam (como se feras fossem) contra uma irracional censura. São, entretanto, apenas encoleirados pela lei que demonstra até onde pode ir a liberdade de expressão sem que se torne liberdade de humilhação.
São, pois, gente, não cães. Até porque estes últimos, desprovidos das especificidades humanas, quando ladram, geralmente não mordem.
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