Nos anos 1980, a cultural de Salvador viu surgir um dos movimentos musicais mais potentes dos últimos 40 anos: o Axé Music. Nascido do encontro entre ritmos afro-brasileiros como o samba-reggae, o ijexá e o frevo baiano, o Axé era a celebração da negritude e da ancestralidade africana. Artistas como Luiz Caldas, Sarajane e Margareth Menezes não apenas colocaram a Bahia no mapa da música nacional, mas também celebraram a potência cultural de blocos afro como Ilê Aiyê e Olodum, que já vinham pavimentando esse caminho desde a década de 1970. Nesse contexto, o Axé era mais do que música; era resistência.
Com o sucesso do gênero nos anos 1990, vieram as adaptações para atender ao mercado nacional. O Axé, que até então era profundamente conectado às suas raízes afro-brasileiras, começou a ser moldado por exigências comerciais que buscavam torná-lo “mais palatável” a públicos diversos. É nesse período que o gênero ganha artistas brancos de grande projeção, como Daniela Mercury, cuja estreia em 1992 com o álbum “O Canto da Cidade” levou o Axé ao estrelato. Ivete Sangalo e Claudia Leitte, surgidas no final da década, consolidaram essa estética mais “universal”, que muitas vezes deixava de lado elementos afro em favor de um som mais pop.
Esse processo de embranquecimento não se limitou aos rostos que representavam o Axé, mas também atingiu o próprio repertório e o discurso do gênero. A religiosidade de matriz africana, intrinsecamente ligada à sonoridade do Axé, foi sendo marginalizada ou apagada. Canções que exaltavam orixás e traziam referências diretas ao candomblé e à umbanda começaram a desaparecer, abrindo espaço para temas mais neutros ou romantizados. Essa mudança se deu em paralelo ao crescimento das religiões evangélicas no Brasil, que durante os anos 1990 e 2000 se expandiram significativamente, tanto em número de fiéis quanto em influência cultural.
As religiões evangélicas, em muitos casos, demonizam práticas culturais associadas às religiões afro-brasileiras, criando um ambiente de rejeição a elementos do Axé Music. Essa tensão ficou evidente em 2003, quando Claudia Leitte, ao liderar a banda Babado Novo, enfrentou críticas após mudar versos de uma música que faziam referência a orixás. Essa mudança foi vista como uma tentativa de alinhar sua imagem a valores cristãos, um movimento que, embora compreensível do ponto de vista pessoal, reforça o distanciamento do Axé de suas raízes.
Ao longo dos anos, esse alinhamento com valores evangélicos também se traduziu em uma “gospelização” do Axé. Artistas como Mara Maravilha, que começou sua carreira no Axé e depois migrou para a música gospel, ilustram essa transição. Além disso, a popularização de subgêneros como o Axé Gospel é um reflexo direto dessa influência, trazendo ritmos baianos para louvores cristãos enquanto deixam de lado sua conexão original com a ancestralidade africana. Esse movimento não só transforma o Axé, mas também cria uma nova camada de apagamento cultural.
O impacto desses processos é profundo e vai além da música. O Axé, que foi uma expressão de afirmação negra, tornou-se também um reflexo das dinâmicas de poder racial e religioso no Brasil. Quando os artistas negros e as referências afro-brasileiras são marginalizados, o que se perde não é apenas um estilo musical, mas também a narrativa histórica e cultural de um povo. Esse é um tema que merece mais discussão, especialmente em um momento em que se celebra os 40 anos do gênero.
Ao revisitar a história do Axé Music, é impossível ignorar o peso do embranquecimento e da influência das religiões evangélicas na sua trajetória. Mais do que uma celebração, os 40 anos do Axé são uma oportunidade para refletir sobre como a música pode ser um espaço de disputa de narrativas e identidades. E, acima de tudo, um convite para relembrar que o Axé, em sua essência, é um grito de resistência que ecoa das ruas de Salvador para o mundo.
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