Opinião – Sons da Perifa: O Carnaval vem aí, mas o direito de festejar não é para todos

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Opinião – Sons da Perifa: O Carnaval vem aí, mas o direito de festejar não é para todos


A abertura do pré-Carnaval nos lembrou que um pouco de brilho, música alta e gente suada ocupando ruas que, no resto do ano, só servem para o trânsito ou para o medo, ainda pode ser um ato de resistência. Será? Quem monta o palco, vende a cerveja, limpa as ruas e cozinha para os foliões tem seu direito à festa cerceado, assim como sua garantia de viver com dignidade. Para quem trabalha no Carnaval, o direito de viver e resistir não é tão garantido assim. Este texto é um lembrete de que, enquanto nos embriagamos, alguém acorda cedo para gelar a cerveja – e, quase sempre, esse alguém é negro.

O Carnaval movimenta bilhões. Só em São Paulo, o desfile das escolas de samba injeta anualmente mais de R$ 2 bilhões na economia da cidade, empregando milhares de pessoas direta e indiretamente. No entanto, o trabalho que sustenta essa festa não é reconhecido na mesma proporção. A lógica da exploração ainda reina: jornadas extenuantes, baixos salários e invisibilidade marcam a realidade dos trabalhadores do Carnaval. De quem cozinha no camarote à equipe que recolhe o lixo ao amanhecer, são sempre os mesmos corpos, as mesmas histórias e memórias da folia.

Essa desigualdade é reforçada por uma estrutura que organiza o Carnaval como espetáculo, mas esquece as comunidades que o criaram. As escolas de samba, surgidas como manifestações culturais de bairros periféricos, viraram parte de uma indústria cultural que fatura alto, mas devolve pouco. Dados mostram que mais de 90% dos negros brasileiros não se sentem representados nas campanhas publicitárias. Isso em um país onde a base do Carnaval – da bateria aos blocos – é negra.

O impacto dessa dinâmica vai além do Sambódromo. Como aponta a tese sobre a territorialidade das escolas de samba paulistanas, esses espaços são mais do que lugares de ensaio: são centros de resistência cultural e social. Porém, as comunidades que vivem em torno das escolas enfrentam processos de gentrificação e exclusão, mesmo sendo elas as guardiãs dessa tradição. Enquanto os holofotes se voltam para as fantasias milionárias e os desfiles cronometrados, as mãos que constroem os carros alegóricos continuam à margem.

E quando falamos de resistência, é impossível não lembrar dos blocos que desafiam a lógica do lucro. Fora dos camarotes VIP e longe dos patrocinadores milionários, blocos periféricos e coletivos independentes preservam a essência do Carnaval como ocupação de espaço e celebração da diversidade. É nas vielas do Grajaú, em São Paulo, ou nos becos do Rio e de Salvador, que o Carnaval ainda resiste, independente, como um laço familiar e comunitário que sobrevive à margem do espetáculo.

No fim, o Carnaval nos obriga a lembrar das contradições que ele mesmo escancara. Quem vive da festa, muitas vezes, não vive a festa. Quem cria o brilho, quase nunca brilha. Enquanto seguimos celebrando, este texto é um lembrete de que a folia também é trabalho, e que esse trabalho, em sua maioria, é sustentado por corpos negros. Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu – ou quem carrega o peso de manter os outros vivos.


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