Opinião – Sons da Perifa: Afinal, por que ainda negam que o funk é música eletrônica?

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Opinião – Sons da Perifa: Afinal, por que ainda negam que o funk é música eletrônica?


Funk é música eletrônica. Negar isso é, no mínimo, desinformação. Na pior das hipóteses, é preconceito – aquele velho ranço que acompanha tudo o que vem das periferias. O funk, com suas batidas digitais, sintetizadores e manipulação de beats, carrega todas as características técnicas de um gênero eletrônico. Mas a resistência em aceitar o funk nessa categoria revela muito mais sobre as estruturas sociais e culturais do que sobre música em si.

Na Europa, por exemplo, o funk brasileiro já é aclamado como um fenômeno. DJs como Arana e Caio Prince têm levado o mandelão para festas e rádios, incluindo compilações internacionais como a da NTS Radio. A mistura de sonoridades eletrônicas com o “molho” brasileiro é vista como inovadora e autêntica. O Spotify, aliás, apontou o funk como o gênero brasileiro mais ouvido fora do país em 2023. Mesmo assim, aqui no Brasil, ele ainda enfrenta resistência, com discursos que tentam diminuí-lo, desqualificá-lo ou isolá-lo.

Esses discursos preconceituosos geralmente vêm embalados em argumentos elitistas ou puristas, como o de que o funk “não é sofisticado o suficiente” para dividir espaço com o house ou o techno. Mas a verdade é que o funk sempre foi um gênero experimental, adaptável e global. DJ Zegon, do Tropkillaz, é categórico: “O funk vem do Miami Bass, do house, e evoluiu até se tornar algo único. É 100% eletrônico e 100% brasileiro”. A recusa em enxergar isso é a mesma que rejeitou o samba no passado e que agora tenta marginalizar o funk.

O preconceito não é apenas contra o som, mas contra o contexto de onde ele vem. O funk é uma música que reflete a realidade das favelas, das periferias, das margens. É aí que está sua potência – e, para muitos, seu incômodo. A cena de música eletrônica, que historicamente sofreu preconceito por ser considerada “repetitiva” ou “barulhenta”, ironicamente repete o mesmo comportamento contra o funk. DJs como Mu540, que levantam a bandeira da inclusão do gênero nos grandes festivais, enfrentam uma barreira que não é técnica, mas social.

A aceitação internacional é, muitas vezes, seletiva. Enquanto as batidas são celebradas, a narrativa periférica que o funk carrega nem sempre é compreendida. É o “som do Brasil” quando vira tendência, mas continua sendo “barulho” quando questiona ou incomoda. E, ainda assim, DJs brasileiros seguem ocupando espaços, questionando: por que só Alok e Vintage Culture têm lugar nos grandes festivais? “A gente sabe mixar, masterizar e produzir como eles, mas com o nosso groove e nossa realidade”, afirma Mu540.

Com seus drops impactantes, beats agressivos e fusões experimentais, ele desafia o status quo, tanto na pista quanto fora dela. Ao contrário de algumas vertentes “engessadas” do gênero, o funk se adapta e inova constantemente, dialogando com diferentes públicos e culturas. É por isso que DJs da Europa às favelas de São Paulo veem no funk uma revolução sonora.

O problema, portanto, não está no gênero, mas na forma como ele é tratado. Quando alguém diz que o funk “não é música eletrônica”, não está falando sobre técnica ou estética – está perpetuando uma visão elitista e excludente. Afinal, se as batidas do techno e do house podem ecoar das pistas de Detroit às de Ibiza, por que as do funk não podem ocupar o mesmo espaço?

No fim, desconsiderar o funk como música eletrônica é perpetuar o preconceito. É uma tentativa de invisibilizar um gênero que carrega consigo a voz de milhões. E, enquanto isso, o funk segue ocupando espaço – nas playlists, nas pistas, nos festivais internacionais e, mais importante, nas vidas de quem o consome e o produz. Porque, gostem ou não, o beat do funk já ganhou o mundo.


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