A inauguração do Teatro Cultura Artística, reconstruído 16 anos depois do terrível incêndio que o havia consumido, foi o principal marco da música clássica brasileira neste ano. Antes de tudo pelo teatro em si, com uma sala principal que já pode ser considerada a acusticamente mais preparada do país para recitais solo, música de câmara e pequenos grupos orquestrais e corais, tanto em termos de homogeneidade e isolamento quanto na qualidade da recepção da experiência sonora.
Mas, para além disso, cabe ressaltar igualmente a memorável programação que fez pender a energia da música clássica em São Paulo para o bairro da Consolação. Dada a intensidade e concentração da temporada, às vezes era difícil, nos últimos meses, eleger o melhor concerto da semana.
O barítono alemão Mathias Goerne interpretando o ciclo de canções “Winterreise”, de Franz Schubert, com o pianista finlandês Anton Mejias, foi um exemplo de fruição estética plena, assim como a apresentação do oratório “O Messias”, de Georg Friedrich Händel, pela Academia Bach de Stuttgart, com solistas e coro dirigidos por Hans-Christoph Rademann.
Se os critérios forem energia e adrenalina, certamente há de se mencionar o concerto da Amsterdam Sinfonietta, tendo como solista a violinista Janine Jansen, com seu Stradivarius, tocando obras de Thomas Adès, William Walton e Antonio Vivaldi.
Já para quem preza os diálogos possíveis à música de câmara, terá sido inesquecível o recital de dois dos mais importantes quartetos de cordas das últimas décadas —o Ébène e o Belcea— tocando juntos em octeto Mendelssohn e Enescu. Por outro lado, nunca Ludwig van Beethoven, Johannes Brahms e Johann Sebastian Bach, nesta exata ordem, puderam significar tanto juntos como na apresentação da pianista Hélène Grimaud.
Do outro lado do vale do Anhangabaú, na Sala São Paulo, a temporada da Osesp, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, manteve sua importância capital no cenário, apesar de alguns programas terem mostrado uma combinação um tanto estranha de autores e obras, como o concerto que tentou integrar Anton Webern a um concerto de Wolfgang Amadeus Mozart, uma obra para sopros de Wynton Marsalis e uma sinfonia de Dmitri Shostakovich.
Os destaques, porém, foram muitos, a começar por “Para Ouvir as Américas”, um dos concertos preparatórios para a miniturnê europeia, dirigido pelo maestro titular Thierry Fischer com obras de Charles Ives, Heitor Villa-Lobos e Edgar Varèse. Ou o incrível programa regido por Heinz Holliger tendo “Tonscherben”, de sua autoria, o “Concerto para Violino”, de Alban Berg, com solo de Ilya Gringolts, e a “Sinfonia Nº 2” de Robert Schumann.
A associação com pianistas como o britânico Paul Lewis e o islandês Víkingur Ólafsson tiveram força maior do que as apresentações do artista em residência, o jovem Tom Borrow.
Outros programas memoráveis foram o regido por Elim Chan, com obras de Anna Clyne, Loránd Eötvös e Shostakovich, ou a “Missa em Si Menor” de Bach com direção de Leonardo García Alarcón.
Iniciativas como o concurso para compositoras latino-americanas da Osesp, no início do ano, infelizmente sem continuidade anunciada, e o concerto especial na Sala São Paulo no Dia da Consciência Negra, iniciativa da série Tucca, viabilizaram estreias mundiais de obras como “Imagen-Tiempo”, de Eva García Fernández, “Pampeana”, de Stephanie Macchi, e “Saravá”, de João Luiz Rezende. Uma outra estreia importante foi a da “Sonata Prisma”, para violão, de Elodie Bouny.
Tristes perdas ocorridas neste ano foram as do compositor pernambucano Marlos Nobre, internacionalmente premiado e aclamado, do queridíssimo pianista Arthur Moreira Lima e do violoncelista Antônio Meneses, certamente um dos instrumentistas que melhor representou o Brasil no mundo internacional da música clássica nas últimas décadas.
Mas também foi um ano de celebrações, como os 80 anos da compositora carioca Marisa Rezende, a vitória do brasileiro Caio de Azevedo no Concurso de Composição de Genebra e os 90 aniversários de nosso mais importante maestro —em plena atividade, Isaac Karabtchevsky segue a inspirar músicos e um amplo público de diferentes gerações.

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