Opinião – Sergio Burgi: Fotos de Evandro Teixeira reafirmam a importância da democracia hoje

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Opinião – Sergio Burgi: Fotos de Evandro Teixeira reafirmam a importância da democracia hoje


“Minha aventura pessoal se identifica com a aventura vivida pelo mundo. Não tenho méritos para isso, sou um homem manejando uma câmera. Quando bem operada, é um fósforo acesso na escuridão. Ilumina fatos nem sempre muito compreensíveis. Oferece lampejos, revela dores do impasse do mundo. E desperta nos homens o desejo de destruir este impasse.”

O fotojornalismo brasileiro se desenvolveu de forma marcante nos anos 1940 e 1950, no período democrático do pós-guerra, em especial através das páginas de revistas ilustradas, como O Cruzeiro, onde uma nova geração de fotojornalistas nascidos no país em regiões distantes do eixo de poder político e econômico do Sudeste, como José Medeiros, Luciano Carneiro, Luiz Carlos Barreto, Flavio Damm e Henri Ballot, buscaram uma fotografia engajada e de cunho social em um momento onde o testemunho visual sobre a verdadeira face do país estava em pleno processo de disputa e construção.

Temas como a pobreza das favelas no Rio de Janeiro, as lutas pela posse de terra no Centro-Oeste e os diversos grupos indígenas sendo contatados, desestruturados e deslocados pela acelerada marcha para o oeste promovida pelo governo federal naquele momento, processo que antecede a construção e inauguração de Brasília em 1960, foram todos objeto de uma ampla documentação visual, que teve grande impacto e influência sobre a população em geral e especialmente sobre a geração seguinte de fotojornalistas que entrariam no mercado na segunda metade da década de 1950, como foi o caso do jovem fotógrafo Evandro Teixeira, morto na tarde desta segunda-feira (4), aos 88 anos.

Nascido em 1935, Evandro Teixeira saiu de Irajuba, na Bahia, a 307 quilômetros de Salvador, para fotografar o Brasil e o mundo. Fez isso tão bem que é difícil dissociar seu nome de qualquer evento no país na segunda metade do século 20.

Em quase 70 anos de atividade, 47 deles no Jornal do Brasil, registrou o golpe militar de 1964 e as manifestações estudantis de 1968, eternizou em imagens icônicas Pelé e Ayrton Senna, acompanhou as visitas ao Brasil da rainha Elizabeth 2ª e do papa João Paulo 2º, documentou fome e pobreza, mas também Carnaval e festas populares. Política, esporte, moda, comportamento, nada escapou às suas lentes.

Esse conjunto monumental, com mais de 150 mil fotografias, está desde novembro de 2019 sob a guarda do Instituto Moreira Salles. São mais de cem mil negativos e milhares de imagens digitais, e também tudo o que diz respeito às suas quase sete décadas de trabalho, das quais 47 anos num só veículo de imprensa, o Jornal do Brasil. Fazem parte do acervo equipamentos variados, como suas primeiras câmeras e aparelho de telefoto, além de revistas, livros, recortes de jornais, cartazes e catálogos de exposições.

Além de sua produção no JB, o arquivo inclui importantes projetos pessoais e independentes que realizou, como a farta documentação que fez de Canudos. O trabalho está no livro “Canudos: 100 Anos”, mas, para além dele e dos negativos de vários anos de trabalho, há toda uma história de bastidores da sua aproximação pessoal e afetiva com os descendentes do massacre no sertão da Bahia.

É neste contexto, portanto, de vivência democrática e empatia pela vida dos outros, por um lado, e de resistência permanente contra o autoritarismo e a violência, por outro, que Teixeira construiu e amadureceu sua carreira e obra, legado fundamental para o país e sua história.

Suas imagens se tornaram símbolos da resistência ao fascismo e ao autoritarismo ao longo dos últimos 40 anos de democracia, duramente reconquistada pela população brasileira, o mais longo período democrático da república.

A obra de Teixeira é, portanto, a expressão plena do compromisso permanente do fotojornalismo com o testemunho direto da realidade e com a liberdade de expressão e criação, essenciais tanto em nosso passado recente como ainda hoje.

Decorridas cinco décadas, suas imagens sobre as ditaduras militares no Brasil e no Chile reafirmam claramente a importância da democracia e do respeito absoluto ao Estado de Direito e à cidadania. São imagens que desnudam o autoritarismo e permanecem denunciando, ainda nos dias de hoje, de forma clara e cristalina os riscos das aventuras golpistas.

As fotografias resistem e constituem um legado visual para a história das populações e suas lutas. Não há dúvida que nos acervos do fotojornalismo –nos órgãos de imprensa ou nos arquivos pessoais dos fotógrafos– encontram-se as imagens que dão visibilidade aos despossuídos e segregados e também às recorrentes e essenciais manifestações por liberdade, justiça e direitos civis. Esta enorme contribuição da fotografia para a compreensão da realidade política e social dos países é fundamental e deve ser preservada e amplamente difundida.

O legado de Evandro Teixeira, pleno de vida, beleza, empatia com os deserdados da terra e luta e luz contra todas as formas de opressão e violência, permanecerá sempre conosco em suas inúmeras imagens, essenciais e incontornáveis, e na lembrança permanente de seu largo sorriso, acolhedor e jovial, com que recebia todos que o procuravam, marca de uma personalidade afetiva e amorosa que sempre soube manter acessa a chama da vida e da esperança mesmo frente a todas as dores e impasses deste mundo.

Viva Evandro!

Sergio Burgi é coordenador de fotografia do IMS



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