Opinião: ‘São Paulo S/A’ captou a pulsação da sociedade paulistana de 1960

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Opinião: ‘São Paulo S/A’ captou a pulsação da sociedade paulistana de 1960


Rever “São Paulo Sociedade Anônima“, quando o filme chega aos 60 anos, ainda é surpreendente. O aspecto histórico é, no caso, o que mais se salienta. Com frequência podemos assistir a filmes em que um lugar é apresentado com exatidão. Mas no longa de Luis Sergio Person algo se mostra diferente.

Quando olhamos para uma rua do Centro —a Direita, a Libero Badaró?— olhamos para essa rua tal qual ela se apresentava em qualquer tarde de um dia normal de trabalhos, nos anos 1960: com um frenético movimento, idas e vindas, pessoas trombando, deslocamentos intensos.

Se passamos aos bairros, existe ali um bairro que parece Vila Mariana. Pode ser outro: casas assombradas, de classe média, por vezes geminadas. Uma rua onde um carro transita sem atropelos. Trânsito modesto.

Chegamos, por fim, à Via Anchieta, onde se situa a fábrica de autopeças que está no centro do argumento. Lá estão suas quatro pistas, que na época deviam ser mais que suficientes para o fluxo de veículos. A fábrica dá a impressão de ser muito recente. As demais, também.

O movimento nas ruas centrais, o aspecto bucólico dos bairros, o frescor da autoestrada e suas fábricas transmitem uma ideia de progresso sólido e feliz, algo na linha do otimismo juscelinista então ainda em vigor.

Essas paisagens captam São Paulo como os paulistanos de classe média a sentiam no começo dos anos 1960: ativa, progressista e ao mesmo tempo tranquila. Sobretudo segura de si, de seus destinos.

Ela contrasta com o enredo tecido ao longo do filme, em que se entrecruzam a corrupção e a ganância de Arturo (Otelo Zeloni), o dono da fábrica, e a insatisfação pessoal de Carlos (Walmor Chagas), o empregado.

O filme se pretendia um registro realista da vida em uma cidade que se transformava intensamente, que se industrializava a partir da instalação da indústria automobilística no país e se tornava o centro econômico do país.

Ao mesmo tempo, o casamento entre Carlos e Luciana (Eva Wilma) sintonizava outro aspecto dessa transformação: a cidade razoavelmente provinciana (um passeio do casal na praça da República fala alguma coisa sobre isso) via também o início da transformação das relações entre homens e mulheres.

As aspirações de Luciana remetem a uma antiga dona de casa, cuja ambição central era ver um marido capaz de triunfar no mundo profissional e/ou dos negócios. Carlos não suporta essa imagem da mulher, que ainda não era inatual. Ele não consegue ver outra perspectiva para Luciana, mas também não aceita seu conformismo.

Ele não entende muito bem onde a mulher está, nem onde ele mesmo está. Não suporta o que ela tem de antiquado, mas não a imagina moderna. Sabe apenas que é preciso recomeçar, palavra que lhe volta à mente o tempo todo. Recomeçar, sim, mas para onde, para quê?

Não é de estranhar que Glauber Rocha tenha se colocado contra este filme, um desses que melhor captaram a pulsação da cidade de São Paulo naqueles anos. Por um lado, o instante é absoluto ali: não importa o que houve antes, nem o que virá no futuro. É bem algo que não contentava a dialética, tão cara a Glauber: a transformação.

Ao mesmo tempo, “São Paulo S/A” situava-se no centro das transformações que aconteciam naquele momento. E o fazia como se não refletisse sobre o assunto, até porque se pretende o reflexo ou o retrato dessas transformações. Isto é, refletia intensamente, ao mesmo tempo em que fixava o instante; não apontava um destino ou um fim: apenas o fluxo do acontecer é apanhado ali.

Tudo isso podia parecer conformista. No entanto, quando voltamos os olhos para o filme de Person parece que a história está grudada nele, tão exata e tão forte é a imagem que transmite de um momento histórico em que se confundiam o progresso econômico, o conservadorismo político, o começo de mudanças profundas no comportamento na sensibilidade.

Colocá-lo em debate, como faz a Cinemateca Brasileira nesta sexta-feira, não é apenas um gesto convencional em relação a filmes razoavelmente célebres. Ainda há muito a ver dentro da obra-prima de Person.



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