Opinião – Ricardo Araújo Pereira: Tenho desenvolvido uma aversão particular à arrogância tecnológica

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Opinião – Ricardo Araújo Pereira: Tenho desenvolvido uma aversão particular à arrogância tecnológica


Liguei a ignição do carro e o painel de bordo avisou: “A temperatura exterior é de –40 °C.” Achei estranho. Eu, curiosamente, vinha do exterior e, ou a minha resistência ao frio tinha subido muito, ou o tempo estava ameno.

Depois, o carro disse que o sistema de detecção de pedestres estava inativo —o que eu estranhei, uma vez que não sabia que o carro tinha sistema de detecção de pedestres. Ando há anos despendendo preciosa energia a detectar pedestres sozinho, sem qualquer ajuda. A seguir, fui informado de que 17 outros sistemas não funcionavam. O carro andava, mas a direção estava pesadíssima. Não tive alternativa a não ser chamar o guincho.

Na oficina, disseram: “o carro está avariado”. Eu respondi: “não está, não, desculpe. Ele liga e o motor funciona perfeitamente. O carro não está avariado. Está sendo um idiota. É diferente.”

Seja como for, examinaram o problema e resolveram-no, a troco de R$ 10 mil. “O que era?”, perguntei. “Um rato introduziu-se por baixo do capô e roeu um fio.” Portanto, tinha havido um combate. De um lado, toda a tecnologia automóvel alemã; do outro, um ratinho. Ganhou o ratinho.

Adorei. Confesso que preferia que tivesse acontecido a um carro que não fosse meu, mas ainda assim gostei. Tenho desenvolvido uma aversão particular à sobranceria tecnológica, à sua suposta superioridade, ao deslumbramento que ela provoca, à sua pretensão de ser mais humana do que eu, de me ajudar a ser mais humano.

Parece-me que o rato nutre pela tecnologia o mesmo desdém. Somos irmãos nisso: nem ele nem eu sabemos como funcionam aqueles sofisticados sistemas, mas temos ambos a capacidade de os estragar.

Um dia, o poeta escocês Robert Burns estava a lavrar os campos da sua quinta e, acidentalmente, destruiu o ninho de um rato, de que o bicho precisava para sobreviver ao inverno.

O irmão do poeta diz que ele compôs o célebre poema “A um Rato” ainda agarrado ao arado. “A tua casinha, também, em ruínas!/ As suas frágeis paredes o vento vai dispersando!” Mais de dois séculos depois, outro rato resolveu comover-me a mim. Coisa que o sistema de detecção de pedestres nunca fez.


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