Opinião – Ricardo Araújo Pereira: Caprichando na representação do eu na vida cotidiana

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Opinião – Ricardo Araújo Pereira: Caprichando na representação do eu na vida cotidiana


Em “A Representação do Eu na Vida Cotidiana”, Erving Goffman identifica muito bem uma espécie de teatro social em que todos participamos. Queremos transmitir uma determinada imagem e comportamo-nos de modo a provocar nos outros a impressão que desejamos causar.

Não sei, no entanto, se Goffman deu o devido valor a representações do eu que têm um objetivo mesmo mesquinho. Uma coisa é querermos transmitir uma imagem de credibilidade, de sofisticação ou de riqueza, e por isso comportarmo-nos de determinada maneira, vestirmo-nos de outra, falarmos de outra ainda.

Mas eu tenho o seguinte problema: às vezes, a minha mulher pede-me que eu compre os seus cigarros. São umas embalagens azul-turquesa. Creio que os cigarros têm sabor de menta. Ora, eu não quero que o vendedor pense que eu fumo aqueles cigarros.

Eu fumo charutos —mas, se fumasse cigarros, eles não viriam em caixas azul-turquesa nem teriam sabor de menta. Devo dizer que, como é óbvio, não conheço os vendedores, não só porque faço as compras em mais do que uma loja como também porque, na mesma loja, os vendedores vão rodando.

Mas a hipótese de uma dessas pessoas ficar a pensar que eu fumo cigarros turquesa de mentol deixa-me transtornado a ponto de eu preferir representar um teatrinho. Sempre que tenho de adquirir os cigarros turquesa de mentol, eu monto a seguinte farsa:

“Boa tarde. Queria uma caixa daqueles cigarros… hum… como foi mesmo que ela disse que se chamavam? São azul-turquesa e parece que tem sabor de menta.”

O vendedor adivinha a marca e dá-me a caixa. Eu fico satisfeito, porque fica claro que os cigarros não são para mim. Esta semana, no entanto, ela pediu-me que comprasse os cigarros duas vezes em dias seguidos, fui na mesma loja, e calhou-me o mesmo vendedor.

Quando percebi que era o mesmo vendedor eu já ia a meio da farsa. Vi nos olhos dele que se lembrava de eu ter estado lá na véspera a dizer exatamente o mesmo. Comprei os cigarros e saí. Voltei a entrar. Voltei a fazer o teatrinho, exatamente da mesma maneira. Creio que ele ficou convencido de que tenho uma perturbação mental. Mas não tem a menor razão para suspeitar que eu fume aqueles cigarros.


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