Norteada pela exuberância, no sentido primeiro da palavra, “Piracema”, a nova coreografia do Grupo Corpo, criada por Rodrigo Pederneiras e Cassi Abranches, já é um marco nas cinco décadas de existência da companhia mineira. O palco brilha: 82 mil latas de sardinha compõem o cenário, que são como as escamas de um peixe, tremeluzindo sob a luz lateral, amarela. A obra inspira-se na natureza informe da água, mas os 11 bailarinos em cena são de carne e osso. Estamos no fundo de um rio do Brasil.
De origem tupi-guarani, a palavra “piracema” designa o movimento dos peixes, que se deslocam contra a correnteza dos rios para a desova. O fenômeno acontece nos meses chuvosos e garante a consumação do ciclo de vida das espécies. Seria preciso, então, transformar a força dos peixes em dança. A coreografia é deslocada até a caixa torácica dos bailarinos, vestidos, num primeiro momento, com collants amarelos.
Os movimentos repetidos para frente, isto é, contra o vazio, que demandam a rotação dos ombros, parecem brânquias se abrindo e fechando. Em “Piracema”, a respiração está ligada à transformação, ideia central da coreografia, que agencia múltiplos sentidos, entre os quais o ciclo da vida, a história da companhia e paradigmas da identidade brasileira.
Na primeira parte, a obra aborda a fugacidade da natureza, cujo funcionamento é invisível ao homem. O vento, as marés, as chuvas, os peixes nadando rio acima, fenômenos que nos escapam como a água.
A aceleração dos movimentos é ditada pela trilha sonora de Clarice Assad, filha do violonista Sérgio Assad, e as suas acentuações rítmicas, que investigam elos entre os instrumentos de raízes afro-brasileiras e batidas eletrônicas de um minimalismo ainda renitente. É nesse contexto que a coreografia explora, em seu desenho no palco, a simultaneidade das ações —tudo acontecendo ao mesmo tempo, como a vida escondida dentro do rio.
É impossível apartar o discurso ecológico de “Piracema”. Fugacidade também significa urgência de imaginar uma relação outra do homem com a natureza. A música de Assad, de todo modo, é como um rádio antigo sintonizando em diferentes estações.
Na segunda parte do espetáculo, a compositora deixa ver sua formação erudita, com o segmento melódico executado à maneira camerística por um naipe de cordas. Em uma atmosfera sentimental, surge o pas-de-quatre: três bailarinas enfileiradas jogam o peso de seus corpos num bailarino logo atrás, de modo a formar um só corpo, assim como a união de peixes faz um cardume.
Seguindo a melodia, o pas-de-quatre se estrutura e se desestrutura, ao modo de um organismo vivo, ou de uma delicada e radiante mônada. Por fim, o última parte da coreografia aponta para o futuro. A trilha é somente eletrônica, correspondendo à economia pós-industrial. Os bailarinos vestem figurinos brilhantes, e os movimentos em cena são menos naturais, mais articulados, representando uma nova vida que virá e deverá ser inventada.
Nas apresentações, “Piracema” é precedida por “Parabelo”, um clássico da dança contemporânea, estreado em 1997 pelo Grupo Corpo, com música de Tom Zé e José Miguel Wisnik. A coreografia de Rodrigo Pederneiras investiga as festas populares nordestinas e os ritmos musicais pertinentes —xote, xaxado e baião. Nada mais gracioso do que os bailarinos levando as mãos na cintura, como se estivessem em um festejo no interior do país— “bota a mão nas cadeiras, menina/ faça o favor de mexer!”, poderíamos lembrar.
Ainda sobre “Piracema”, o tema da transformação se refere, em última instância, ao percurso do Grupo Corpo, também em constante mudança. Manter uma companhia de dança no Brasil por 50 anos significa nadar contra a corrente, sem dinheiro e com pouca visibilidade.
É uma situação ambígua, dentro das várias contradições das artes cênicas no mundo de hoje. Em um país que dança parecendo odiar a dança, a arte do Grupo Corpo se tornou conhecida em festivais estrangeiros. Essa ambiguidade se estende, enfim, à identidade popular, pela necessidade de superação diária.
Com “Piracema”, Pederneiras e Abranches, agora coreógrafa residente, afirmam a exuberância como a qualidade de multiplicar sentidos –ecológicos, estéticos, políticos– e então adensá-los em um raro fato artístico que merece atenção no Brasil do século 21.
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