Opinião: ‘O Agente Secreto’, com gato de duas cabeças, reúne passado e futuro

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Opinião: ‘O Agente Secreto’, com gato de duas cabeças, reúne passado e futuro


Uma das razões das muitas surpresas provocadas por “O Agente Secreto” talvez decorra do fato de ele ser esperado, e depois visto, como um filme sobre a ditadura militar. Esse mal-entendido engendra outros, já que não se trata mesmo de um filme “sobre” a ditadura, mas “na” ou “durante” a ditadura, como explicita um letreiro no início em que se fala de um “tempo de pirraça”, o que de certa forma explicita o momento da ditadura sob Ernesto Geisel, após a defecção da ala mais sinistra do Exército.

Estamos diante de algo sobre o que não tenho visto referências mais detidas —o gato de duas cabeças, mas que pontua a ambiguidade da época retratada, assim como do próprio filme. Uma cabeça olha para o passado, podemos pensar, outra para o futuro.

O passado é o assunto central do filme, embora não especificamente o passado ditatorial. Kleber Mendonça Filho, como em outros de seus filmes, observa os fatos e pessoas passados como mistérios. Ele se preocupa em especial com o esquecimento, ou antes, o apagamento.

Os sinais de apagamento ao longo do filme são evidentes e recorrentes. Há a morte da mulher do protagonista, de que se fala como uma doença, mas qualquer adulto percebe que se trata de uma história para enganar crianças.

Existe apagamento do nome do protagonista, Armando, substituído por Marcelo. Apagamento de sua mãe, jovem criada possuída pelo patrão e depois desaparecida. Esses sucessivos apagamentos desembocarão na cena final, em que o filho de Armando-Marcelo entrará em contato, por meio da voz, com a história de seu pai, de que foi alienado.

Esse eixo é central também em outros filmes do autor, de “O Som ao Redor” a “Aquarius” —o engenho na abertura do primeiro; a evocação de uma mestra libertária no segundo—, em que a remissão a fatos passados conforma e justifica toda a ação posterior.

Armando é um homem obcecado pela figura materna, por seu apagamento. Isso o leva a buscar o Instituto de Identifcação, embora não explique sua presença no Recife. Ele é um professor, talvez ex-professor universitário com certos desafetos, mas não um perseguido político.

No entanto, ele se tornará —terá o passaporte confiscado, vai morar num abrigo para “refugiados”. Será um perseguido político-policial, digamos, pois o desafeto, um industrial paulista, consegue mexer os pauzinhos contra ele em Brasília, ao mesmo tempo em que contrata dois assassinos profissionais, evidentemente vindos de funções policiais ou militares.

Eles nos levam por outro caminho ao Recife e, com isso, à hoje famosa perna cabeluda que ocupa algum segmento do filme. Mas, antes dela, me parece que as pernas ocupam lugar privilegiado na trama, ou numa das tramas do filme.

A perna aparece logo de início, na barriga de um tubarão capturado na orla do Recife, enfim num local próximo. Em si, a perna é apenas uma curiosidade. Não, no entanto, para um delegado local, que se empenhará em roubar o membro do Instituto Médico Legal para em seguida, com sua equipe, jogar aquilo de volta às águas.

A preocupação do delegado não é com a perna, claro, mas com o restante do corpo —ele atirou no mar o corpo de alguém, um possível “comunistazinho”. Seu problema é que a perna pode suscitar uma busca do restante do corpo e, por conseguinte, trazer à luz a história —outro apagamento— do assassinado, o que seria inconveniente para ele.

Espera com isso enterrar de vez o caso da perna. Ela também terá desaparecido sem que ninguém saiba por quê. No entanto, essa perna persiste. Como um retorno do reprimido ela reaparecerá como signo, ou alucinação, ou o que seja, na memória popular —nas manchetes dos jornais, por certo, mas sobretudo nos lugares de prática amorosa noturna aberta.

A perna é um signo de repressão, óbvio, associado à atividade policial, e ao mesmo tempo um signo de liberdade, de um humor que dá vazão, indiretamente, a uma rebeldia que não pode ser expressa.

Até aí temos vários elementos que remetem ao gato de duas cabeças, mutante, portanto. Os assassinos profissionais são convocados entre antigos policiais ou militares. Esses, por sua vez, são extremamente próximos à polícia local, representada pelo delegado. Os assassinos são contratados pelo industrial poderoso, que já roubou trabalhos da universidade e pretende ver o professor rebelde, Armando-Marcelo, fora do seu caminho. Quer “apagar” o homem. É mais um que deve sumir do mapa, não deixar traços, lembranças.

São personagens de um tempo de “pirraça”. De uma cabeça no passado e outra no futuro. De um aparato repressivo não mais centralizado, e sim difuso, inoculado dentro do sistema de produção e de justiça por efeito da ditadura. Ele opera tanto nos assassinatos como no encobrimento da mídia, como na corrupção medonha dos agentes policiais achacadores.

Chegamos com isso ao apagamento de memória final. O corpo que vemos na foto do jornal, acompanhado da legenda, significa que o assassinato é investigado como “queima de arquivo”. As falácias publicadas sobre o professor acabam fazendo sentido, afinal. Um morto que, ao contrário da perna cabeluda, não incomoda.

Exceto, digamos, pela ação de algumas pesquisadoras universitárias que se põem a pesquisar sobre os estranhos arquivos que uma benfeitora houve por bem gravar com Armando. É uma arbitrariedade, provavelmente —quem está na clandestinidade tenta não deixar traços de sua passagem.

Talvez Armando-Marcelo, prevendo as dificuldades que serão impostas a ele pela ação do industrial tenha desejado mesmo deixar um depoimento para o futuro. Ele é de enorme valia para o filme, mas de quase nenhuma para historiadores futuros. A não ser, claro, pela jovem que se apaixona pelo caso e chega até o filho de Marcelo, médico num sintomático banco de sangue.

Sintomático por mais de um motivo —o mais evidente é o banco de sangue ocupar o lugar de um antigo cinema. Temos aí mais um apagamento, o dos cinemas de rua, cruelmente assassinados por outros serviços e, sobretudo, pela especulação imobiliária.

O banco de sangue que funciona em seu lugar tem um quê irônico, já que o cinema, lugar de tanto sangue, é substituído por uma lugar de coleta e doação de sangue. Mais do que isso, é o lugar onde trabalha o médico, filho de Armando, que desconhece a história do pai. Mais que desconhece, parece fazer questão de desconhecer. Como em tantos fatos notáveis da vida nacional, passamos uma borracha sobre o acontecido como forma de continuar a viver sem mexer no passado.

O final é de uma melancolia tocante e, me parece, inédita até aqui no cinema de Kleber Mendonça Filho. Sinaliza uma situação em nada resolvida, um passado que agora pode ser revolvido pelo filho (outro filho, outro apagamento de memória), mas que talvez não seja. A questão é deixada em aberto —será ele tocado pela curiosidade, como o espectador que gosta de saber como termina o filme?—, o que nos impede de realizar a catarse que outros filmes, notadamente “Ainda Estou Aqui“, proporcionam.

Me parece mesmo que faz um contraponto a esse título, mais do que ao filme de Walter Salles. É como se Marcelo dissesse que já não está aqui, como sua mãe, como o homem da perna cabeluda, como o cadáver anônimo da cena inicial no posto de gasolina.

Mas é também a estruturação do “Agente” que pode frustrar um pouco os fãs de “Ainda Estou Aqui”, muito mais direto a respeito dos fatos da ditadura, mas também capaz de suscitar a euforia do público, ou de algum público, que pode respirar aliviado e orgulhoso daquilo que felizmente já passou.

“O Agente Secreto” tem de secreto justamente isso —lembrar que aquilo não passou, apesar das aparências. Para tanto, o filme de Mendonça Filho adere com afinco a uma estética contemporânea, feita de cacos ou, se se quiser, de camadas do cinema passado.

Podemos ver o longa como um filme de mistério ou de aventura, como policial ou thriller político. Não podemos esquecer o papel que ali desempenha o filme de terror. Ele aparece citado em “King Kong” ou “O Iluminado”, mas sua clareza vem da perna, seja a perna isolada do corpo original, seja a perna cabeluda.

Seja, por fim, pela presença fugaz mas decisiva do estranho gato mutante, com uma cabeça para cada lado, a do passado e a do futuro, enquanto o corpo vive num presente inquietante.



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