Opinião – Música em Letras: ‘O Admirável Sertão de Zé Ramalho’ surpreende em meio à maioria dos musicais

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Opinião – Música em Letras: ‘O Admirável Sertão de Zé Ramalho’ surpreende em meio à maioria dos musicais


Há muito musicais brasileiros vêm contando, quase sempre de forma careta, burocrática e linear, a trajetória de artistas da MPB.

Diferentemente, “O Admirável Sertão de Zé Ramalho” é um espetáculo singelo que conta a biografia do paraibano Zé Ramalho sob a ótica do diretor Eduardo Barata, privilegiando a linguagem dramatúrgica para homenagear quem alguns, equivocadamente, chamam de Bob Dylan.

Zé Ramalho pode ser chamado de Bob Dylan, mas se for acompanhado de Roberto e de Erasmo Carlos, do sertão, de Pink Floyd, dos Beatles, de Jackson do Pandeiro e de Luiz Gonzaga. Eduardo Barata sacou que Zé Ramalho e sua obra são muitos, e que mereciam ser tratados como tal, evitando o oportunismo de reproduzir a biografia do artista em um musical “mala”, mais próximo de um karaoke.

Isso não acontece em “O Admirável Sertão de Zé Ramalho”, espetáculo que estreou no ano passado em Niterói e passou em várias cidades do Norte e do Nordeste do país, antes de ter sua estreia em São Paulo, no teatro do Sesc 24 de Maio, com casa cheia, na última noite de quinta-feira (7).

É através da obra de Zé Ramalho, que a biografia do artista é contada e cantada criativa e poeticamente ao público que pode apreciar tanto a sua música quanto a riqueza existente na dramaturgia, muito bem explorada no espetáculo.

Nove atores estão no musical criado por Barata, em 2018, que emprega 42 pessoas diretamente e mais de 100 indiretamente, envolvidas em uma única missão, mostrar a biografia de Zé Ramalho através da linguagem dramatúrgica.

Para isso Barata reuniu um elenco primoroso, em que artistas cantam, dançam, tocam e interpretam cada qual um Zé Ramalho, que ora se apresenta em um corpo feminino, ora masculino, ora careca, ora cabeludo, ora magro, ora forte, ora preto, ora branco, ora pardo, mas sempre com a dramaturgia em dia.

Adriana Lessa lidera de maneira sublime e elegante o grupo formado por gente do ramo, entre outros a pernambucana Maria da Conceição Ferreira Silva, a Ceiça Moreno, 76, sanfoneira, compositora e maestrina, que estreia no teatro com esse musical.

O baterista e percussionista Diego Zangado dá um show de domínio de seu instrumento, acompanhando saxofone, guitarra, baixo e violão, além de criar paisagens sonoras nas quais os atores Cesar Werneck, Marcello Melo, Muato, Nizaj e Ricca Barros projetam suas vozes de maneira clara e emocionante.

Muato, além de interpretar, toca, canta e é responsável, com Plínio Profeta, pela excelente direção musical do espetáculo, com arranjos simples e inovadores que vestem as canções sem deformá-las.

A atuação de Ricca Barros é um assombro. O ator substituiu Tiago Herz, tendo ensaiado uma só vez com o grupo. O resultado é inacreditável, pois fica nítido haver muito trabalho realizado em muito pouco tempo.

Não menos impactante é a atuação de Marcelo Melo. No espetáculo, Melo faz o papel do “Autêntico Zé Ramalho”, sabatinado no final do musical para explicar, por exemplo, qual o significado da frase “…um olho cego vagueia procurando por um”, na letra de “Frevo Mulher”, música imortalizada por Amelinha, ex-mulher de Zé Ramalho. Sem spoiler, a resposta deve ser conferida in loco.

Já Nzaje Vieira Dias, o Nizaj, é um refugiado angolano, nascido em Luanda, que atua na comunidade da Maré, no Rio, desde 1999, como MC, compositor, percussionista e, como pode ser conferido no musical, um excelente ator, assim como o cabeludo e expressivo Cesar Werneck.

Contudo a fraca atuação de Duda Barata, 26, filha do diretor Eduardo Barata, parece ser um típico caso do que os norte-americanos chamam de “nepo babies”. Entretanto isso não macula “O Admirável Sertão de Zé Ramalho”, pois a atriz é nova e, um dia, ao lado de tanta gente boa, aprende. Como aprenderam os profissionais responsáveis pelo cenário e figurino, que fizeram do pouco, muito. No caso, muito bom.

Assista, a seguir, ao vídeo no qual o elenco de “O Admirável Sertão de Zé Ramalho” encerra o musical cantando com o público “Frevo Mulher”.



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