O diretor e dramaturgo Leonardo Netto criou uma peça que funciona como lupa. São sete cenas independentes, mas que, juntas, mostram como a mediocridade se infiltra no dia a dia da classe média brasileira. Não é uma crítica grandiosa, mas uma observação afiada do óbvio que ninguém quer encarar: a complacência moral e intelectual de elite branca.
A estrutura fragmentada de “Pequeno Circo de Mediocridades” faz sentido: a vida real também não tem roteiro linear. Uma discussão sobre reforma de apartamento, um jantar entre amigos que vira competição de ego, crianças com medo do escuro – são situações comuns que, quando colocadas no palco, revelam o quanto são ridículas. O humor ácido faz rir, mas também arranca a máscara da normalidade.
A inspiração em Jessé Souza – escritor e sociólogo da realidade brasileira – aparece, mas sem discurso acadêmico. A montagem mostra na prática o que ele descreve nos livros: uma classe média que se acha esforçada, mas vive de privilégios; que critica a desigualdade, mas fecha a janela quando o assunto é incômodo. Sem moral da história, só constatação.
O título é perfeito. É um circo mesmo: todo mundo performa – e aqui, ponto para o quarteto de atores formado por Alexandre Varella, Elisa Pinheiro, Gustavo Falcão e Marina Vianna –, ninguém assume o protagonismo, mas no fundo todos estão no mesmo picadeiro. A peça não tenta mudar nada, apenas coloca o espectador diante de uma pergunta simples: “Será que eu também faço parte desse espetáculo?”
A resposta é óbvia.
Três perguntas para…
… Leonardo Netto
As sete cenas independentes exploram diferentes facetas da elite branca brasileira. Como você escolheu os temas de cada uma? Há algum fio condutor que as una além da crítica social?
Os temas foram escolhidos a partir da mobilização que eles me provocaram. São temas que me inquietam, me preocupam, que chamam a minha atenção. Escolhi estes sete porque achei que eles formavam um painel interessante sobre a classe média. Poderia ter escolhido outros tantos além destes, porque a classe média é muito complexa e variada. Acho que o fio condutor é mesmo a crítica social, mas existe um pensamento que as coloca na sequência que o espetáculo apresenta. Aí pensando no todo mesmo, em uma cena abrir caminho para outra. O espetáculo começa mais leve e vai ficando mais amargo.
Os personagens são descritos como “moralistas, preconceituosos, competitivos e risíveis”. Como foi o processo de construção dessas figuras? Você se baseou em observações do cotidiano?
Totalmente. Eu sou da classe média. “Da gema”. Nascido e criado nela. A peça é repleta de coisas que vi e ouvi. Mas todo dramaturgo se utiliza, em sua obra, de coisas que viu e ouviu. Todos os escritores, na verdade, independentemente do gênero literário. Por isso acredito (e essa crença tem se confirmado no retorno que o público nos dá após as apresentações) que a peça cause desconforto na plateia. Um desconforto que vem do reconhecimento.
O teatro brasileiro contemporâneo tem abordado cada vez mais questões sociais e políticas. Como você enxerga o papel do dramaturgo nesse contexto?
Acho que esse foco em questões sociais e políticas tem relação com uma necessidade urgente de discutir o presente, de entender esse momento conturbado que vivemos, no mundo inteiro. Nesse contexto, o dramaturgo é uma espécie de antena parabólica, que vai captar um sinal-tema relevante para sua comunidade e espalhar esse sinal através da obra teatral. Mas isso não é característica apenas da contemporaneidade. Acho que todo bom dramaturgo, seja ele no século 16 ou na semana passada, é uma antena do seu tempo.
Teatro Poeirinha – rua São João Batista, 104, Botafogo – Rio de Janeiro. Qui. a sáb., às 20h. Dom., às 19h. Até 31/8. Duração: 90 minutos. Classificação: 14 anos. A partir de R$ 50 (meia-entrada) em sympla.com.br e na bilheteria do teatro
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