Denise Stoklos acende fogueiras. E no palco íntimo do Teatro Estúdio, sua chama mais urgente, “Um Fax para Colombo”, queima com a mesma ferocidade de 1992. Este não é um retorno nostálgico; é um reencaminhamento vital de uma mensagem que teima em não ser entregue.
O fax do título é uma carta de amor e ódio, um SOS histórico, endereçado a um destinatário fantasma. A peça é um manifesto decolonial disfarçado de monólogo, onde Stoklos, com seu Teatro Essencial, raspa a superfície da história até sangrar. Sem cenário, sem excessos: só um corpo, uma voz e a verdade nua e crua.
Ela desmonta a conquista ultramarina. Colombo vira um “gnomo maléfico”, o “descobrimento” se revela um negócio sujo, e a colonização, uma feitiçaria que nos mantém subdesenvolvidos há 500 anos. Através do diário de um náufrago latino-americano, Stoklos inverte o olhar. A história não é mais contada pelo vencedor, mas pela voz que sobrou – a dos povos massacrados, dos escravizados, das culturas soterradas.
Stoklos dança entre a filosofia cortante e o humor ácido, uma estratégia brechtiana para nos manter acordados. O riso não alivia o golpe; o afia. Em 50 minutos concentrados, ela conduz uma relação quase sagrada com a plateia. No Teatro Estúdio, com seus 100 lugares, somos cúmplices obrigatórios. Não há para onde correr do seu olhar ou da sua palavra.
A atualidade da peça é seu trunfo mais trágico. Se o fax ainda precisa ser enviado, é porque as estruturas de poder que ele denuncia seguem de pé. A temporada paulistana, com ingressos populares e sessões gratuitas, é um ato de coerência rara. É a estética da essência encontrando a ética da acessibilidade.
“Um Fax para Colombo” é um organismo vivo de resistência. Stoklos exige rebeldia. E no escuro da sala mínima, sua voz, “que arde em chamas”, nos lembra que a descolonização não é um evento do passado, mas uma luta que se reacende a cada nova plateia, a cada consciência que se recusa a aceitar o mundo como nos foi (mal) contado. O fax chegou. E a mensagem, insistente, clama por ação.
Três perguntas para…
… Denise Stoklos
A peça nasce em 1992 como um contraponto às comemorações dos 500 anos. Hoje, vivemos uma era de revisionismos históricos, mas também de negacionismos. Como fazer com que a sua crítica ecoe num cenário de tanta polarização?
Acredito que as críticas levantadas no texto “Um Fax Para Colombo” são muito contundentes, impossíveis de não serem feitas, entendidas e compartilhadas, quer pela direita quer pela esquerda. Menciono as opressões bárbaras que passaram os povos originários.
O Teatro Essencial propõe uma “redução de meios” para chegar a uma “ampliação de sentidos”. Em um mundo hiperestimulado e digital, por que a austeridade de um corpo solo e uma palavra nua ainda é um ato tão radical e potente?
O teatro mantém esta função de trazer ao espectador preenchimentos às suas buscas mais profundas da existência. E no FAX mesclamos a questão coletiva da invasão no Descobrimento da América com as descobertas pessoais de como podemos estar também nos exterminando, a nós mesmos, em nossas vidas particulares, por tantas razões às vezes nem integralmente percebidas.
O texto tem a densidade de um ensaio filosófico, mas a pulsação de um poema. Como é o trabalho de escrever para a cena quando a palavra tem um peso tão político e o corpo é seu veículo de entrega?
Aí reside uma das bases do Teatro Essencial: estruturar uma linguagem que se aproprie do significado grande de “encenação”, lugar onde várias camadas de informação e de sentidos sensibiliza ao mesmo tempo, seja no macro e no micro, no coletivo e no pessoal, na história e na atualidade, mas sobre o outro e sobre o eu em conjunto. Para isso, emitindo durante o texto um jogo de entonações que surpreenda e capture aquele que está presente ao acontecimento da cena no imediatamente agora e o envolva, para que saia mais forte do teatro.
Teatro Estúdio – rua Conselheiro Nébias, 891, Campos Elíseos, região central. 12 e 17/11, às 20h; 20/11, às 16h. 19 e 25/11, às 16h*. Duração: 50 minutos. A partir de R$ 30 (ingresso popular) em sympla.com.br e na bilheteria do teatro
*sessões gratuitas, ingressos limitados
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