Duas recentes tentativas de fazer true crime no Brasil mostram como a indústria audiovisual tem estrada a percorrer no desenvolvimento deste filão.
“O Assassinato do Ator Rafael Miguel” trata de um crime violento ocorrido em junho de 2019 e acompanha os seus desdobramentos até o julgamento e condenação do assassino, em maio de 2025, em São Paulo. “A Mulher da Casa Abandonada” descreve um caso de trabalho análogo à escravidão, que vitimou a empregada doméstica de um casal de brasileiros em Washington, nos Estados Unidos.
Rafael Miguel foi um ator mirim, com participações em minisséries e novelas da Globo e um papel de algum destaque em “Chiquititas”, folhetim infantil do SBT, exibido entre 2013 e 2015. Quando o crime ocorreu, o jovem de 22 anos trabalhava como professor de inglês. Paulo Cupertino foi condenado a 98 anos de prisão pelo assassinato de Rafael e de seus pais, João Alcisio Miguel, de 52 anos, e Miriam Selma Miguel, de 50 anos. Os três foram mortos a tiros diante da porta da casa de Isabela Tibcherani, namorada do rapaz.
O crime provocou enorme comoção, pela brutalidade e permaneceu no noticiário policial por quase seis anos, primeiramente por causa do desaparecimento do acusado e depois por causa de sua prisão e julgamento. A reprodução de trechos de reportagens de programas policiais vespertinos dá uma ideia do sensacionalismo com que o caso foi tratado. A série, porém, ignora a oportunidade de abordar criticamente o frenesi da mídia e acaba sendo, ela própria, altamente apelativa.
“O Assassinato do Ator Rafael Miguel” também não mergulha no perfil do assassino nem oferece um retrato decente das três vítimas. O foco do programa, dirigido por Mauricio Dias e disponível na HBO Max, é Isabela Tibcherani. A jovem é retratada em primeiro plano nos três episódios. Situações artificiais, criadas pela produção, reforçam o esforço de provocar emoção e empatia do espectador com Isabela. Numa das cenas finais, a jovem é mantida isolada num quarto de hotel enquanto o júri decide o destino de seu pai. Ela recebe a notícia da condenação por telefone, começa a chorar e é consolada por um dos técnicos da gravação da cena.
“A Mulher da Casa Abandonada” é uma produção muitos degraus acima em matéria de sofisticação. Levanta várias bolas interessantes sobre o caso em questão, mas parece temer ir mais fundo em aspectos essenciais do drama. A série mostra, com alguma ironia, a comoção que o podcast de Chico Feliti gerou, mas evita discutir o sensacionalismo do próprio programa veiculado pela Folha.
Há um progresso importante na série, que é a demonstração do sofrimento imposto a Hilda Rosa dos Santos. O depoimento da ex-empregada doméstica é poderoso! Já as declarações dos então vizinhos de Rene e Margarida Bonetti em Washington, um importante esforço de produção, são repetitivos e apresentados num formato de jogral. Causa estranheza, também, constatar que o único condenado no caso, a seis anos de prisão, o engenheiro Rene Bonetti é praticamente ignorado na série. O fato de não ter aceitado convite para dar depoimento não justifica a omissão. Há pelo menos uma entrevista dele, à Record TV, na qual assume responsabilidade pelo que ocorreu.
Margarida Bonetti continua um mistério. É uma personagem antipática, de difícil acesso e de maus modos. Apesar dos valiosos avanços em relação ao podcast, a série dirigida por Katia Lund, e disponível no Prime, não consegue escapar dos estereótipos ao retratá-la. Fica para uma próxima temporada.
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