Opinião – Marcus Preto: Musa de muita gente, Preta Gil desmascarou hipocrisias do Brasil

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp
Opinião – Marcus Preto: Musa de muita gente, Preta Gil desmascarou hipocrisias do Brasil


Sem que ninguém se desse conta, talvez nem ela própria, Preta Gil transformou definitivamente a música pop nacional a partir de sua chegada à cena, em 2003. Tão tropicalista ali quanto havia sido seu pai nos anos 1960, a artista desmascarou hipocrisias ainda pouco diagnosticadas, expôs fobias e desvelou preconceitos que se escondiam sob o tapete da sala de jantar da família brasileira.

Corajosa, usou a si mesma como espelho daquela sociedade —que, em Preta, se via refletida e, contra ela, reagia. Desde então, a artista soube transformar essas reações —quase sempre agressivas— em motor para seu trabalho, elevando a complexidade do entretenimento que consumimos por aqui.

Esse movimento começa em seu álbum de estreia, dirigido pelo prestigiado Tom Capone. “Prêt-à-Porter”, de 2003, virou assunto nacional naquele ano —muito mais pelas imagens da capa do que pelas canções que apresentava.

O projeto gráfico de Fernando Zarif trazia a cantora nua, seios à mostra, ocultando apenas o sexo. “Gorda desse jeito? Ela não tem vergonha?”, atirava um. “Disse agora que é bissexual. Tá querendo aparecer, né?”, opinava outro. “Gilberto Gil deve estar puto, é muito desrespeito com a história dele, um gênio da MPB”, chutava um terceiro.

Todos acreditavam estar falando sobre Preta, mas, isso sim, encaravam nela as próprias mazelas: machismo, gordofobia, homofobia, elitismo etc. O fato de ela ter escancarado nossa pequenez social pelo lado de dentro tornava a ação ainda mais eficiente. E Preta contribuía intencionalmente com o noticiário de fofocas, adorava manipular a máquina usando seus romances e sua vida pessoal como matéria-prima. Nisso, tinha muito de outra diva, Maysa.

Lembro de entrevistar Gilberto Gil àquela altura, e essa questão acabou entrando na conversa. Perguntei o que ele achava de sua filha ter se tornado uma musa gay. “Ela é uma musa gay, mas também é uma musa ‘fat’, uma musa ‘black’… Preta representa muita gente, e eu só posso me orgulhar disso. Preta é forte”, ele respondeu.

De fato, ela parecia nada temer. Dividia possíveis dores com os mais chegados, engolia o choro que sobrasse no canto da garganta e seguia em frente. O fato de ter atuado em tantas outras áreas —empresária, apresentadora de TV, atriz de novela (foram três na Globo e uma na Record)— ajudou a artista a não desistir da carreira na música. Como não era seu único foco, a vida de cantora podia ser levada sem pressa e com leveza.

Foram, ao todo, cinco álbuns: três gravados em estúdio e dois ao vivo. Ainda que não tivessem exatamente esse propósito, os trabalhos seguintes acabaram por fortalecer a imagem de “musa de muita gente” que Gil definiu.

A partir de certo momento, Preta passou a se apresentar em boates gays. A convite da própria, fui assistir a um desses shows na The Week —clube paulistano bastante conhecido naquele período, com público de classe média-alta, quase sempre refratário à música brasileira. No palco, Preta juntava Dorival Caymmi com pagode 90, Caetano Veloso com Xuxa, Gilberto Gil com Abba. Era uma versão rearranjada do “Cassino do Chacrinha” com ecos de Teatro Oficina. Tropicália levada na prática.

Importante lembrar que tudo isso aconteceu mil anos antes de Pabllo Vittar, Gloria Groove, Duda Beat ou Marina Sena. Preta é, definitivamente, a mãe de todas as nossas jovens estrelas pop. É difícil imaginar quantas paredes a mais elas teriam que quebrar se não tivesse havido uma Preta Gil para abrir tanto caminho.

Ainda devemos a Preta Gil uma análise mais honesta de seu legado.

Lembro que, terminada a apresentação catártica na The Week, fui encontrar Preta rapidamente no camarim. Disse a ela que aquele show tinha mais conteúdo do que a pataquada que Madonna acabara de trazer ao Brasil. Em uma boate gay, Preta propunha mais mudanças nas cabeças da sociedade do que a americana fazia em um estádio lotado. Ela me respondeu: “Acha mesmo? Então escreve isso no jornal”.

Eu disse que faria. Perdão, Preta, por ter demorado tanto.



Source link

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp

Nunca perca uma notícia importante

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *