Opinião – Marcos Augusto Gonçalves: Antonio Cicero e Marina foram pressionados por esquerda careta

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Opinião – Marcos Augusto Gonçalves: Antonio Cicero e Marina foram pressionados por esquerda careta


No dia 23 de agosto de 1984, a Ilustrada dedicou a capa de sua edição à estreia do show “Fullgás”, da cantora Marina Lima, em São Paulo. Àquela altura, seu irmão Antonio Cicero, com 38 anos, poeta e professor de filosofia, se consagrava como fino e original letrista da nossa canção popular.

“Antigamente eu achava que pegava mal no meio artístico ser professor de filosofia. E que pegava mais mal ainda ser letrista de música popular na universidade. Hoje o impasse está resolvido, prefiro a música a ser professor. Sou péssimo professor”, avaliou.

O verso “você me abre seus braços e a gente faz um país”, fecho luminoso da canção que dava título àquele espetáculo, continua a ecoar quatro décadas depois, nos convidando a um entrelaçamento feliz entre afeto e política.

Na mesma reportagem, ele respondia de maneira afiada aos questionamentos sobre o comprometimento com “mensagens” políticas mais explícitas, em tempos de campanha pelas eleições diretas e surgimento em cena de uma geração ligada ao rock, vista com desconfiança por alguns intelectuais e representantes mais sisudos e caretas da esquerda.

Cicero, como se sabe, também escreveu com Lulu Santos e Sérgio Souza o hit “O Último Romântico”, com o provocativo e refrescante “tomar o mundo feito Coca-Cola”, mas também o sonho de “reunir a zona norte à zona sul” .

“Perguntam frequentemente o que eu quero dizer com certas letras, onde está afinal a ‘mensagem’ política. Ora, os comunistas e os fascistas sempre disseram que tudo é político. Os artistas reagem falando na arte pela arte. Eu não. Mais radicalmente que comunistas e fascistas, concordo que a política não se dá apenas numa instância própria, exclusiva. E fico espantado quando me cobram uma posição política no meu trabalho, logo os que dizem que tudo é político!”

O debate da politização se inscrevia num contexto anterior que perdurou e ganhou novos contornos após o golpe de 1964. Uma relativa hegemonia da esquerda no meio cultural, mesmo sob a ditadura, não raro se traduzia em pressões para um padrão mais nitidamente político nas artes.

Foi o que o cineasta Cacá Diegues apelidou no final da década de 1970 de patrulhas ideológicas —”um sistema de pressão, abstrato, um sistema de cobrança”. “É uma tentativa de codificar toda a manifestação cultural brasileira. Tudo o que escapa a esta codificação será necessariamente patrulhado.”

Marina Lima e Cicero, além de escreverem canções identificáveis com a onda do rock da década de 1980, assumiam comportamentos transgressores no terreno dos costumes, mais próximos do tropicalismo e da contracultura, de certa forma, do que dos cânones da canção de protesto e da militância universitária.

Cicero era muito amigo de Caetano Veloso, do poeta e letrista Waly Salomão e do designer gráfico e artista Luciano Figueiredo, todos personagens dessa deriva cultural mais desejante e libertária.

Numa espécie de manifesto publicado antes do lançamento do disco, Marina e Cicero não disfarçavam a irritação com pressões normativas que sentiam no ar.

“Como a música é a expressão mais viva da cultura no Brasil, é justamente a ela que os caretas tentam impor a sua ‘ordem’. Se nossa música é política? Nossa música é a nossa política.” E prosseguiram —”chega de ideais repressivos, cagando regras, fingindo estar acima do tempo e dizendo, por exemplo, que devemos ser heterossexuais ou bissexuais, ou que devemos ou que não devemos ter ciúme”. “Melhor para nós são a descoberta e liberação dos desejos e gostos autênticos de cada um.”

Também naquela capa da Ilustrada, Matinas Suzuki Júnior era certeiro sobre o jogo de Marina e seu irmão com o universo da canção. “Seu estilo que deliberadamente não evita o romantismo e o tonalismo, só na aparência é ingênuo. Guarda o som e a fúria de um saber mais amplo e, no caso de Cicero, de um conhecimento maduro de filosofia e poesia (ouso dizer: o letrista é um fingidor, Cicero mente sinceramente).”

Antonio Cicero foi figura de elegância e dignidade —tanto pessoal quanto intelectual— ímpares. Um príncipe. Sua erudição, se assim desejasse, poderia intimidar. Mas não. Embora tenha dito naquela reportagem de 1984, assinada, aliás, por mim, ser um péssimo professor, o certo é que a convivência com ele era um permanente aprendizado.



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