Depois de algum buzz nas redes sociais, a versão australiana de “The Office” estreou no Prime Video, com a primeira protagonista feminina desde que David Brent (Ricky Gervais) enlouquecia seus funcionários em 2001, na versão britânica desta que é uma das séries mais representativas deste século. Em 2005 veio a adaptação americana, com Michael Scott (Steve Carell), e outras dez releituras se seguiram para provar que a repetitiva rotina de burocratas de escritório é mesmo um tema universal.
Fãs das duas versões mais famosas terão alguma dificuldade em engolir esta adaptação australiana, uma cópia pálida de suas antecessoras.
É verdade que, quando a produção com Carell estreou, muitos viram uma repetição quadro a quadro da britânica. Então o pessoal da Dundler Mifflin em Scranton, Pensilvânia, mostrou personalidade própria, acenou ao brilhantismo sardônico de Gervais e soube injetar ternura ao roteiro, resultando em um provocativo espelho cultural dos EUA. Foram nove temporadas (a original teve duas) e um sucesso que perdura 11 anos após seu fim.
“The Office – Austrália” não tenta ser uma reprodução quadro a quadro, pois os 23 anos que a separam da primeira estreia inviabilizam isso. Ainda assim, a insistência em emular os personagens anteriores é um fardo, notadamente no caso de Felicity Ward, que encarna a gerente Hannah Howard.
Trocar o gênero do protagonista prometia boas tiradas, mas Ward se esforça para ser um clone de Carell dos trejeitos ao sorriso apatetado. Sua missão é reverter a política de trabalho remoto da empresa de embalagens que a emprega, pois, tal qual Michael, é só no escritório, com seu pequeno poder, que sua vida faz sentido.
Como Michael e David, ela tem uma bajuladora, a recepcionista Lizzy, herdeira da bizarrice que pertencia a Dwight Schrute (Rainn Wilson) na versão americana. Vivida por Edith Poor, Lizzy é o solitário sopro original da série, sendo tão esquisita como Dwight sem se parecer com ele.
E há o quase-casal Greta (Shari Sebbens) e Nick (Steen Raskopoulos), cuja química vale uma nota 6 ante o 10 de Jim e Pam (John Krasinski e Jenna Fisher).
Único rosto mais conhecido, o produtor-executivo Jonny Brugh, de “Bandidos do Tempo” e “O que Fazemos nas Sombras”, recebeu um personagem mais novidadeiro, Lloyd, o sujeito que decidiu morar em outra cidade na pandemia e se vê numa enrascada logística quando é obrigado a voltar ao presencial
O roteiro não oferece muito aos demais, o que é uma pena —na Dundler Mifflin, o que funcionava melhor era a sintonia perfeita entre os vários personagens e o revezamento entre eles ao receber destaque, assegurando a qualidade durante nove anos. Falha, também, em captar as mudanças no mundo do trabalho, um tema saboroso no qual as duas antecessoras mais famosas navegaram bem.
“The Office” é bom porque nos identificamos com parte das situações, seja qual for seu ofício, e rimos pelos constrangimentos aos quais nos submetemos por ambição, amizade ou mera falta de coisa melhor para fazer (no sentido imediato e no grandioso).
Ao acelerar situações e o desenvolvimento dos personagens, a série australiana tira essa empatia, limitando-se a gags. Não chega a ser ruim, mas vale mais rever as desventuras de Michael e David.
Os oito episódios da primeira temporada de ‘The Office – Austrália’ estão disponíveis no Prime Video; as nove temporadas da versão americana estão na Netflix
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