Opinião – Luciana Coelho: Sitcom ‘Leanne’, na Netflix, fura bolha conservadora, mas protagonista e público mereciam mais

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp
Opinião – Luciana Coelho: Sitcom ‘Leanne’, na Netflix, fura bolha conservadora, mas protagonista e público mereciam mais


Leanne Morgan é um nome relativamente novo no cenário da comédia americana, apesar dos 60 anos que deve completar em outubro agora.

Emergiu em 2020 de um estado cujos talentos tendem à música mais do que ao stand-up (o Tennessee), com um sotaque sulista carregado para o qual há quem torça o nariz e um repertório inequívoco do miolo conservador dos Estados Unidos sem tocar em política. Nada em uma seara predominantemente masculina (e frequentemente machista) na qual entrou não pela escola ou pelo teatro, mas em reuniões de amigas para vender joias.

Há, no entanto, algo reconfortante em Leanne que lhe faz passar ao largo da polarização e das guerras culturais correntes, e que ajuda a explicar seu sucesso em redes sociais, palcos e agora em uma nova série na Netflix.

Assinada por Chuck Lorre —o sujeito por trás de “Two and a Half Men“, “The Big Bang Theory” e outras sitcoms da era plateia e das risadas gravadas—, Susan McMartin (de “Mom”) e a própria protagonista, “Leanne” é o voo mais alto da comediante, cujo especial de stand-up para a Netflix em 2023 fez sucesso.

Intriga a opção pelo revival do formato “multicâmera”, em contraposição ao uso de câmera única e montagem com repetidas tomadas em múltiplos cenários, como um filme. É um modelo que parecia sepultado, ainda que guarde um lugar repleto de nostalgia no peito dos espectadores.

Outros elementos também soam antiquados, como a ambientação, as risadas gravadas e as piadas com notas de sexismo e etarismo constrangedoras, ainda que não ofensivas.

Mas Leanne sobrevém. Sua versão nas telas, como a do mundo real, vê a vida dar uma guinada quando a cartilha proclamada até muito recentemente previa declínio. É uma história que atrai empatia porque é real. Com o aumento da expectativa de vida, as taxas de divórcio tardio avançam (o “divórcio grisalho“). E a enérgica titular do show é um paradigma desse muito que mudamos.

O enredo é o de uma mulher que se divorcia após os 50, com dois filhos adultos e um neto bebê, sem nunca ter considerado essa hipótese. Para navegar pela nova situação, conta com a irmã, Carol (a ótima Kristen Johnston, de “Third Rock From the Sun” e dona de uma das pontas mais memoráveis em “Sex and the City“), e um misto de otimismo com humor autodepreciativo.

O universo da série é o de uma comunidade conservadora e republicana. A vida social se dá em torno da igreja e da vizinhança; o divórcio é visto num primeiro momento como fracasso (sobretudo para a mulher); os almoços e jantares fartos estão muito longe das metas de proteínas e carboidratos que alucinam tantos.

Há estereótipos, mas eles não servem para ridicularizar o que retratam nem enaltecê-lo como “melhor” ou “mais verdadeiro” do que outros estilos de vida, uma raridade e um alívio na atual conjuntura.

Material tão farto e o carisma da protagonista mereciam um roteiro melhor. Afora a escolha de formato, nada surpreende na história. Os diálogos carecem de graça e às vezes são forçados. Quando as conversas entre as duas irmãs inspiram algum sorriso, esse vem pela cumplicidade com quem também sente a idade avançar sorrateira, não pela graça.

Pouca gente faz hoje um humor que rompa bolhas, e por isso Leanne merece atenção. Melhor negócio que a sitcom, talvez, seja ver seu especial de 2023 e torcer para que os produtores em breve a presenteiem com material superior.

Os 16 episódios da primeira temporada de ‘Leanne’ estão disponíveis na Netflix


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.



Source link

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp

Nunca perca uma notícia importante

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *