Em meio a tantas séries sobre ricos pérfidos afundando em dramas e vilanices, “Sereias”, que estreou nesta quinta (22) na Netflix, pode passar batida. Quem furar a espuma da superfície —parece uma comédia sarcástica, mas não é; parece um suspense simplista, o que engana— será recompensado.
Além de um elenco vistoso (Julianne Moore, Meghann Fahy, Milly Alcock, Kevin Bacon), a minissérie aborda com habilidade a psicologia das relações humanas, das superficiais às profundas e o que pode haver de comum entre elas.
Há algo de drama familiar, mas o olho atento da dramaturga Molly Smith Metzler, que primeiro escreveu a história para o teatro e agora para a TV, capta também teias sociais, relações de poder e exercícios de vaidade humanos. Para prejuízo do espectador, porém, esses aspectos mais intrigantes só começam a emergir lá pelo meio dos cinco episódios.
Antes disso, e um pouco depois, também, perde-se tempo demais com tentativas de confundir o público e evocar as produções calcadas no mesmo tipo de personagem. Provavelmente, “Sereias” funcionaria melhor como filme, mas a tentação de filmá-la em cinco horas acaba por criar desvios sem propósito no roteiro.
Ressalva feita, é sempre prazeroso ver Moore e Bacon em cena. Fahy, que apareceu na segunda temporada de “The White Lotus”, e Alcock, a Raehnyra jovem em “Casa do Dragão”, também compõem com nuances bem-vindas a dupla de irmãs no centro da história.
Fahy é Devon, uma mulher de 30 e poucos anos que perdeu a mãe muito jovem e vive com o pai alcoólatra e demente, desdobrando-se entre empregos mal remunerados e incidentes com a polícia. Um dia ela decide dividir essa fatura com a irmã mais nova, Simone (Alcock), a assistente de uma mulher que trocou a carreira de advogada pelo casamento com um magnata e a vida social anexa a ele, incluindo aves selvagens.
Kiki (Moore) parece manipuladora e calculista, enquanto Peter (Bacon) é o rico gente-boa que come na mesa dos muito empregados e não parece ter pesar na vida. Em efeito-espelho, Devon é apresentada como desajustada e infeliz, e Simone é a menina-prodígio que parece viver a vida com a qual sonhou.
Conforme “Sereias” avança, e a dinâmica entre as duas famílias e com os demais funcionários da casa —uma discreta saudação aos filmes e séries de divisão de classes britânicos — fica mais clara, essas percepções se embaralham, como se a roteirista tentasse nos mostrar que o que vemos das pessoas, em ambientes e situações delimitados, é um fragmento.
Ninguém precisa de uma série para saber que seres humanos são complexos e as relações entre eles são invariavelmente imperfeitas, claro, mas é interessante ver a minissérie costurar isso aos poucos, em meio a tons pastéis e florais que só tornam mais deprimente a lugubridade interna dos personagens.
Sutil no início e nítida depois, fica também a contraposição entre personagens masculinos, com inabalável auto-estima, e as femininas, jamais confortáveis nem cientes de seu potencial e possibilidades.
Por fim, Bill Camp, na pele do pai vilão/indefeso das duas irmãs, nos põe para pensar em quais são as obrigações que os laços familiares nos impõem, e quão presos a elas de fato estamos.
Os cinco episódios de “Sereias” estão disponíveis na Netflix
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