Opinião – Luciana Coelho: ‘Pssica’ atravessa o espectador como um choque elétrico e urgente

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Opinião – Luciana Coelho: ‘Pssica’ atravessa o espectador como um choque elétrico e urgente


Não cabe sutileza em “Pssica”, novo thriller policial na Netflix com a assinatura de Fernando (produtor) e Quico Meirelles (diretor) e da O2 Filmes. Bruta, a minissérie é um petardo sobre tráfico e exploração sexual infantil no Pará, com violência física e psicológica no volume máximo.

Mas também não há excesso. O brega que embala a trilha sonora, as cores fluorescentes, a floresta e sobretudo os rios, que engolem corpos e crimes, estão na tela em doses exatas.

Nem palavras sobram. É assim também no livro de 2015 que inspirou o roteiro, do romancista paraense Edyr Augusto. Diálogos curtos, sem tempo, meio sôfregos, com temperatura local.

Pssica, aliás, é a gíria que equivale à “zica” do sudeste —coisa que dá errado, mau agouro. Algo que o roteiro não se preocupa em explicar, tratando a ambientação paraense sem exotismos.

E nisso o experiente trio de roteiristas —Stephanie Degreas, Fernando Garrido e Bráulio Mantovani— acerta demais.

Acerta, também, na opção por duas protagonistas: a menina Janalice, que é humilhada com o vazamento de um vídeo íntimo, depois estuprada, depois raptada, depois vendida e obrigada a se prostituir; e a vivida Mariangel, uma colombiana que participou da guerra civil em seu país e joga por terra o plano de ter uma existência pacata no Brasil quando o marido e o filho são mortos.

No livro, o personagem de Mariangel era de um homem. A inversão deu possibilidades extras ao roteiro e uma delicadeza inesperada ao momento em que a trajetória das duas finalmente se cruza. E não deixa de ser saboroso ver a atriz colombiana Marleyda Soto, que deu corpo à Úrsula Iguarán envelhecida na versão para as telas de “Cem Anos de Solidão”, fazer o papel que, em outros tempos, caberia a um tipo como Chuck Norris.

Janalice, a “novinha”, é interpretada pela atriz paraense Domithila Catete, um achado. Aos 15, ela vira alvo de chacota na escola por ter se deixado gravar com um namoradinho, e o vídeo viraliza. Os pais, envergonhados e desavisados, mandam a menina para Belém, viver com uma tia, e daí em diante o mundo só piora. Timing perfeito quando o país discute o amadurecimento sexual precoce.

Entre as duas há a quadrilha de piratas dos rios da região do Marajó, que rouba cargas de embarcações e assalta passageiros. São eles que um dia roubam a venda de Mariangel, o que culmina na morte de sua família. É o filho de Tabaco, Preá (Lucas Galvino), que fica obcecado por Janalice ao vê-la brevemente sendo vendida para a quadrilha de Zé Elidio (Claudio Jaborandy), que abastece um bordel em Caiena, na Guiana Francesa.

Embora roteiristas e diretor tenham escolhido conduzir a história pelas duas mulheres, é quando fala de Preá e da quadrilha que a minissérie mais se aproxima de “Cidade de Deus”, a obra-prima de Fernando Meirelles, pai de Quico.

Não apenas pela câmera na mão, ágil, e a edição frenética que captura o espectador para o meio das perseguições (agora nos rios, e espertamente entremeada com cenas feitas de celular na vertical), como também pela tentativa do personagem Preá de romper com o crime, ainda que a genealogia e as circunstâncias pareçam impor-lhe o contrário.

Há até o momento em que o bandido, para firmar autoridade, decide não mais querer ser conhecido pelo apelido de criança (uma versão do “Dadinho é o c**; meu nome é Zé Pequeno”).

Os noveleiros reconhecerão o ator Ricardo Teodoro, o Olavinho de “Vale Tudo”, como o segundo algoz de Janalice, e os adeptos do humor de redes sociais perceberão a comediante Ademara na pele da primeira amiga da menina. São participações pequenas mas fortes em uma série em que tudo é rápido, muito rápido. Exceto digerir o que vemos na tela.

Os quatro episódios de “Pssica” estão disponíveis na Netflix


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