Opinião – Luciana Coelho: ‘Pablo e Luisão’ eleva a arte o que o brasileiro faz melhor: rir das próprias desgraças

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Opinião – Luciana Coelho: ‘Pablo e Luisão’ eleva a arte o que o brasileiro faz melhor: rir das próprias desgraças


Com “Pablo e Luisão”, série que estreou no fim de março no Globoplay, já dá para dizer que Paulo Vieira é a melhor coisa que ocorreu no humor brasileiro nos últimos dez anos — e a concorrência é respeitável, ainda que restrita. Ao fazer da história de sua família o centro da piada e recontar nas telas uma vida de casos insólitos, o comediante também produziu um espelho de tudo aquilo que define a alma de quem vive neste país.

Vieira não inventa a roda. Ao lado do cocriador Mauricio Rizzo e dos roteiristas Bia Braune (colunista da Folha), Caíto Mainier, Nathalia Cruz e Patrick Sonata, ele usa fórmulas tradicionais, como humor físico e o holofote no núcleo familiar, e as mescla a tendências online em uma escrita ágil e contemporânea. O modo como costuram-se esses elementos é natural e inteligente para que o resultado soe renovador diante de um público bombardeado diuturnamente por aspirantes a humoristas menos perspicazes.

O Pablo do título, no caso, é o melhor amigo de Luisão, que por sua vez é o pai do comediante. A dupla, que vive em Palmas (TO), se dedica a achar jeitos de ganhar dinheiro rápido ou de resolver pequenos problemas com planos mirabolantes que envolvem algo construído por eles mesmos.

Desnecessário dizer, nada nunca dá certo e eles jamais desistem, para aflição de Paulo (o próprio), de seu irmão caçula, Neto, e da mãe, Conceição.

O elenco é certeiro. Dira Paes, como Conceição, brilha em um menos frequente registro cômico; Ailton Graça, na pele de Luisão, e Otavio Muller, intérprete de Pablo, complementam-se à moda das melhores duplas de comediantes, e há ainda os meninos Yves Miguel (Paulo) e João Pedro Martins (Neto), dois achados. A insólita quantidade de “causos” enseja uma lista de participações especiais que inclui Caetano Veloso, Miguel Falabella, Marcelo Adnet, Lima Duarte.

O humor ácido, desbocado e com algo de pueril/escatológico (afinal, é a visão de um menino prestes a entrar na adolescência no início dos anos 2000) não é ofensivo nem hesitante. Salva-se assim do pêndulo da polarização atual —Vieira não esconde suas cores políticas, elas apenas não ditam o roteiro.

Com autoficção e um narrador (ele mesmo) que derruba a quarta parede para conversar com o público e passear entre personagens, apelo ao espírito interiorano comum em nossa produção cultural, depoimentos dos personagens reais no final e a graça tirada das coisas banais para se conectar com público, a série de 16 episódios curtos é o auge, por ora, de uma cartilha que o comediante explora há algum tempo em redes sociais e programas diversos.

Podemos não estar diante do maior gênio da comédia nacional neste momento (talvez Adnet mereça esse posto; o leitor certamente terá mais sugestões), mas é difícil contestar que seja o mais universal, aquele que faz humor popular sofisticado e traz ares novos a preceitos antigos.

Folclórico, o repertório de brasilidades evocado na série esquenta o coração (e às vezes, o sangue) de qualquer um que tenha vivido nestes país em algum momento das últimas quatro ou cinco décadas.

Esse efeito já se mede no público: nesta semana, a série superou em audiência, na Globoplay, as novelas da plataforma e o clássico “A Grande Família”.

Os 16 episódios da primeira temporada de ‘Pablo e Luisão’ estão disponíveis no Globoplay


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