Opinião – Luciana Coelho: ‘O Conto da Aia’ termina com um baita anticlímax (mas sua relevância permanece)

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp
Opinião – Luciana Coelho: ‘O Conto da Aia’ termina com um baita anticlímax (mas sua relevância permanece)


Um final anticlimático que arrematou uma temporada interessante porém incapaz de fazer jus a uma das séries mais marcantes da última década. Foi assim que terminou neste mês “O Conto da Aia”, após sete anos e seis temporadas que tornaram as vestes vermelhas e os chapeuzinhos brancos usados por sua personagem-título um símbolo de protestos contra o retrocesso dos direitos civis pelo mundo.

O livro lançando por Margaret Atwood em 1985 virou série no momento em que a realidade achava ecos na “ficção social” (como ela descreve) imaginada pela canadense, na qual fundamentalistas tomam o poder nos Estados Unidos e, em meio à crise de fertilidade global, instauram um regime totalitário no qual as mulheres capazes de gestar são escravizadas por “comandantes” para perpetuar seus genes.

Esse eco foi rapidamente absorvido por massas progressistas e liberais surpreendidas pelo avanço de políticos ultraconservadores e/ou autoritários em diferentes cantos do mundo. A iconografia criada por Atwood e por Bruce Miller, o “showrunner” da série, está impressa na política civil da última década, o que por si já defende as qualidades da obra.

Mas, com tantas temporadas além do ponto em que Atwood terminou o romance, a história filmada passou, a partir do terceiro ano, a girar em falso. Não raras vezes personagens traíam sua construção, entre redenções e hesitações com pouca justificativa além de fazer a história revirar e se alongar.

Foi assim nesta leva final de episódios, na qual foi distorcido até mesmo o interessante arco narrativo de Serena Joy, a escritora de autoajuda religiosa que se torna uma das fundadoras dessa teocracia que suprime mulheres, apenas para se ver também vítima do regime. Da mulher calculista e perspicaz que se impôs como a antagonista de fato da heroína June ela se torna um fantoche boboca capaz de cair na mesma armadilha pela segunda vez.

June também parece ter perdido inteligência a cada temporada, assumindo um fanatismo secular que de certa forma espelhou a crença desmensurada de seus algozes.

Ainda assim, Elisabeth Moss, na pele de June, e Yvonne Strahovski, como Serena, ofeceram até o último capítulo interpretações tocantes. O mesmo fizeram Ann Dowd como a tia Lydia, chefe das capatazes que treinam as aias para serem seviciadas, e Samira Wiley, a amiga frequentemente deixada para trás por June.

Esta sempre pareceu ser uma série sobre mulheres, para mulheres, especialmente mulheres progressistas. Se o livro se esquiva graciosamente do flerte com o maniqueísmo, no entanto, a série, sobretudo na temporada final, o abraça sem vergonhas.

Absolutamente todas as personagens femininas tiveram sua redenção, enquanto os personagens masculinos patinaram entre a vilania caricata, a covardia e a palermice. Uma meia exceção vai para o economista sarcástico de Bradley Whitford, o capitão Lawrence, um sujeito tão genial quanto pusilânime.

Resta um aceno otimista àqueles que vemos na obra uma referência desta década política e a inserimos na iconografia pop, um agrado, um momento catártico de revolução mais bem representado no bonito penúltimo episódio do que no posfácio anticlimático que fechou a história. Se o final é insosso, a relevância de “O Conto da Aia” não depende dele. Que bom.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.



Source link

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp

Nunca perca uma notícia importante

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *