Poucas coisas feitas na música soam tão dilacerantes quanto “Hand of Doom”, música do segundo álbum do Black Sabbath, “Paranoid”. O ano era 1970 e Ozzy Osbourne, morto nesta terça-feira, aos 76 anos, descrevia com detalhes mórbidos a morte inescapável de um personagem viciado em substâncias injetáveis —uma referência nada sutil à heroína.
O vocalista lembra a Guerra do Vietnã, em curso na época, dando um contexto mais complexo ao uso da droga —uma resposta psíquica de quem viveu o conflito. “Sua pele começa a ficar verde/ seus olhos já não enxergam/ a realidade da vida/ empurre a agulha para dentro/ encare o sorriso doentio da morte/ há buracos na sua pele/ causados por um alfinete mortal”, diz a letra.
Figura maior que a vida, Ozzy Osbourne se tornou o príncipe das trevas para o grande público, uma caricatura que hoje pode soar banal, mas que parte de uma base sólida. Nos primeiros álbuns do Black Sabbath, a voz de Ozzy foi veículo primordial para desvelar um lado obscuro da existência humana, estranhezas que antes de a banda existir tinham espaço marginal na música popular.
Em “Black Sabbath”, primeira música do primeiro disco de mesmo nome do grupo de Birmingham, no Reino Unido, Tony Iommi usa pouquíssimas notas na guitarra para criar um ambiente macabro no qual Ozzy se revela para o mundo. Ele soa sinistramente frio ao dizer que há uma figura de preto em pé atrás dele, apontando para ele, enquanto os caminhos melódicos que percorre não só corroboram a mensagem —eles são a mensagem.
Desde o Black Sabbath, a música popular foi aderindo a temas sombrios de diferentes maneiras. O “thrash metal” do Sepultura e do Slayer sintetizou o ódio mais diretamente na forma de cantos guturais, seguindo a trilha de Lemmy no Motörhead. O Iron Maiden injetou melodia na música pesada em suas faixas épicas. O Kiss sempre soou como um filme de terror escrachado e bem-humorado, enquanto Alice Cooper fez das trevas um teatrinho.
Toda essa produção deriva diretamente dos quatro primeiros discos do Black Sabbath —”Black Sabbath” e “Paranoid”, ambos de 1970, “Master of Reality”, de 1971, e “Vol. 4”, de 1972—, as verdadeiras raízes do rock pesado. Os elementos da estética do terror na música se multiplicaram, mas nada nunca teve o impacto do quarteto britânico nos anos 1970.
Além do pioneirismo, e dos embates morais em sociedades cristãs e conservadoras, o Black Sabbath carregava uma crueza brutal. Cada toque na bateria de Bill Ward parecia pesar uma tonelada, sem soar como um helicóptero desgovernado. Os baixos de Geezer Butler eram o esqueleto desse demônio sônico, enquanto Tony Iommi usava as mais sujas das distorções disponíveis na época para levar o som do grupo diretamente ao inferno.
A abordagem do guitarrista, aliás, é uma boa síntese do próprio Sabbath. Ele perdeu as pontas dos dedos médio e anelar da mão direita em um acidente de trabalho quando tinha 17 anos, e seu estilo deriva dessa condição. Tony passou a criar “riffs” mais simples e diretos e usou afinações mais graves e leves para facilitar que conseguisse tocar com as próteses.
Ozzy não perdeu nenhuma corda vocal na adolescência, mas também se destacava pela simplicidade. Sempre econômico, ele não só sabia quando entrar e sair de cena numa música, mas recusava estripulias e artifícios teatrais para soar macabro. Sua voz era feroz e cortante, mas se destacava mesmo porque parecia ter o timbre exato de alguma criatura demoníaca debochada.
Nada disso teria a força que teve se o Sabbath não tocasse nos temas que tocava —justamente através da voz de Ozzy. A música “Sweet Leaf”, ou folha doce, começa com a gravação de uma pessoa tossindo e fala basicamente sobre maconha. “Snowblind”, ou cego de neve, não esconde do que se trata, já que vozes sussurram “cocaine”, ou cocaína, logo no fim da primeira estrofe.
E as drogas, sob a ótica da dualidade entre o prazer e a autodestruição, eram apenas um desses temas. Um dos maiores hits do grupo, “War Pigs”, trata da banalização da vida na mão de poderosos, em meio à guerra —explorada em outras faixas, como “Electric Funeral” e “Children of the Grave”. “Paranoid”, outro sucesso, é o retrato de um quadro depressivo, em que o eu-lírico não consegue enxergar a felicidade.
Em “N.I.B.”, Ozzy assume o ponto de vista de um satanás irresistivelmente sedutor que parece representar desejos reprimidos enquanto promete ao ouvinte o Sol, a Lua e as estrelas. “Behind the Wall of Sleep” descreve um vislumbre da morte de alguém que tanto pode estar sonhando quanto no fim da vida.
Ozzy obteve até mais sucesso comercial depois dos anos 1970, já fora do Black Sabbath. A longevidade da obra da banda, contudo, é indício inequívoco de que nem ele depois —nem ninguém— trouxe tão bem à superfície essas faces ocultas da psique humana por meio do canto.





/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/03/circulo-signos-3.jpg?w=300&resize=300,300&ssl=1)
/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2024/10/istock-1471699246.jpg?w=300&resize=300,300&ssl=1)
/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/02/juros-scaled.jpg?w=300&resize=300,300&ssl=1)









/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/03/circulo-signos-3.jpg?w=150&resize=150,150&ssl=1)