Em “Ready to Die”, faixa-título do primeiro e clássico disco do rapper Notorious B.I.G., a primeira voz que se ouve é a de Sean “P. Diddy” Combs —na época, ainda conhecido como Puff Daddy. Ele faz um tipo durão e surge perguntando se os “filhos da puta” estão prontos, e em seguida diz que “vamos acabar contigo”.
Diddy ainda canta junto a Biggie, um dos grandes nomes da história do rap, no refrão, e reaparece em todo álbum —e na curta, mas influente carreira do rapper. Como na primeira frase de “Ready to Die”, contudo, ele não passa de um apêndice, uma ponte para apresentar as rimas de Biggie —essas, sim, de deixar qualquer fã de música de queixo caído.
Considerado culpado pela Justiça de parte dos crimes dos quais era acusado nesta terça-feira (2), Diddy sempre foi maior na indústria da música do que na música propriamente dita. Ele tem um punhado de álbuns, e mais uma meia dúzia de hits, mas seu poder está mais atrelado ao que acontece por trás do que na frente das câmeras.
Diddy trabalhava na gravadora Uptown Records, em Nova York, e saiu dela para fundar a Bad Boy Records, em 1993. O selo ganhou proeminência no ano seguinte, ao lançar Notorious B.I.G., jovem rapper que se tornou o grande nome da costa leste contra a força de Tupac e a gravadora Death Row na costa oeste americana.
Se Biggie era o correspondente nova-iorquino do californiano Tupac, o mesmo pode ser dito de Diddy em relação a Suge Knight. Em entrevistas e relatos ao longo dos anos, ambos já foram acusados de estarem envolvidos nas mortes destes dois rappers, que foram assassinados nos anos 1990 em casos até hoje não resolvidos pela Justiça.
Assim como Knight, que foi condenado a 28 anos de prisão por homicídio num caso de atropelamento em 2015, Diddy é um dos grandes magnatas e empresários a despontar no “gangsta rap” de 30 anos atrás. Ele foi uma das pessoas que pavimentaram o caminho para que Biggie deixasse de vender drogas para se tornar um artista.
Uma entrevista antiga de Biggie, aliás, veio à tona na internet conforme as acusações de diversos crimes —a maioria deles, sexuais— contra Diddy pipocavam nos últimos meses. Nele, o rapper surge abraçado ao empresário, dizendo que, para ele, o amigo é como Jesus. “Ele me salvou. E digo isso quantas vezes for preciso.”
Biggie alisa a mão do empresário e diz que sua pele é muito macia. Os dois então afirmam que se amam e trocam carícias. A julgar somente pela grande maioria dos comentários deste vídeo no YouTube, todos feitos depois das acusações contra Diddy, não há dúvidas de que eles tinham um romance.
É impossível saber o que de fato aconteceu entre Biggie e Diddy. Não há evidências de que o empresário tenha se aproveitado sexualmente do rapper, mas há outras histórias como esta relacionadas a Diddy.
Na virada para os anos 2000, o empresário vivia o auge como rapper. Seu primeiro disco, “No Way Out”, de 1997, emplacou alguns sucessos na esteira da morte de Biggie, apenas quatro meses antes do lançamento. Além de parcerias com Jay-Z, contemporâneo do rap de Nova York, e amigo de Diddy, e outras com Biggie, estourou a música “I’ll Be Missing You”, um tributo ao MC que havia morrido. Diddy até hoje paga Sting, líder do The Police, por ter sampleado ilegalmente “Every Breath You Take” na faixa.
Diddy foi viver o sucesso a valer em 2006, com “Last Night”, parceria com Keyshia Cole do disco “Press Play”. Esta música, sim, se tornou um hit definitivo do rádio e das festas nos anos 2000 que dura até hoje —ainda que muita gente nem relacione essa música a Diddy. Mas enquanto tudo isso acontecia, o empresário se tornava magnata e adquiria um poder bem maior do que seu desempenho nas paradas.
O cantor Usher tinha 14 anos quando foi apadrinhado por Diddy, tendo inclusive morado com ele nessa época. Mais do que isso —o magnata era o tutor legal do artista e foi produtor executivo de seu primeiro disco, lançado em 1994.
Em entrevista ao podcast Art of Dialogue, em outubro do ano passado, o ex-segurança de Diddy, Gene Deal, disse que ouviu de pessoas próximas que Usher teria sido hospitalizado com sangramento anal quando era menor de idade. “É o que foi dito para mim”, ele afirmou. “Você não sabe se é verdade. Você só ouviu isso. Tudo isso é maluquice.”
Já na virada para os anos 2010, Usher foi o mentor de Justin Bieber, também um menor de idade quando despontou na música. Há alguns vídeos na internet de Diddy com o canadense, que foi apresentado ao empresário justamente pelo cantor de R&B.
Num deles, Justin aparece ao lado do magnata em Nova York. “Ele está se divertindo bastante, vivendo o melhor momento da vida dele”, diz Diddy. “O que estamos fazendo aqui não podemos revelar, mas é definitivamente o sonho de um garoto de 15 anos de idade.”
O empresário segue lembrando que foi o tutor legal de Usher na época de seu primeiro álbum. “Não tenho a guarda legal dele [Justin Bieber], mas pelas próximas 48 horas ele está comigo. E vamos perder a linha”, Diddy afirma.
Em outro vídeo, de apenas alguns anos depois, os dois se reencontram num estúdio. Na ocasião, Diddy sugere que Bieber está agindo diferente porque naquele momento estava lotando arenas em seus shows. “Você não tem me ligado e nem temos saído do jeito que fazíamos”, diz o empresário. O cantor parenta constrangimento e afirma que vai passar seu número de contato para ele.
No ano passado, o produtor musical Rodney “Lil Rod” Jones fez diversas acusações contra Diddy na Justiça de Nova York. Ele assinou nove músicas do disco “The Love Album: Off the Grid”, que o rapper-empresário lançou em 2023, e tem em comum com Usher e Bieber o fato de que era também um jovem em busca de espaço na indústria da música.
Rod disse à Justiça que Diddy o forçou a fazer sexo com prostitutas, o drogou e ameaçou por mais de um ano. Afirmou também que o empresário dava bebidas alcoólicas misturadas a outras substâncias para as pessoas em sua casa. Disse ainda que em seus encontros havia meninas menores de idade e acompanhantes de luxo, e que um dia acordou na cama com duas prostitutas acreditando que foi drogado.
Shawn Holley, advogado de Diddy, disse que “a menção imprudente de Jones a eventos que são pura ficção e simplesmente não aconteceram nada mais é do que uma tentativa nítida de ganhar manchetes”.
Sem entrar no mérito das acusações de crimes sexuais, essas histórias são reveladoras da posição que Diddy ocupa na indústria da música. Poderoso, ricaço e muito bem relacionado, ele é visto como alguém capaz de fazer uma carreira deslanchar —ou destruí-la. Temido pelos artistas, virou uma espécie de filtro, uma porta de entrada, para o mundo da música e das celebridades. É também, claro, famoso pelas festas, os freak-offs, e o estilo de vida de excessos.
É por causa dessa excentricidade, e do teor violento e sexual das acusações contra ele, que analistas da imprensa americana estão tratando seu julgamento como o maior e mais midiático desde o que inocentou Michael Jackson há 20 anos. Levando em conta o impacto artístico, é bom que fique claro —Diddy nunca fez nada minimamente próximo de um “Thriller” em nenhum parâmetro de comparação.
Em 2013, quando ele liderou a lista da Forbes dos artistas de hip-hop que mais faturaram no ano, não era somente por causa da música. Além do selo, Diddy fez mais dinheiro que gente como Jay-Z, Kanye West e Dr. Dre com uma marca de vodca —a Ciroc—, uma linha de roupas —a Sean Jean— e um canal de TV e internet —o Revolt.
Sucesso nos negócios, incluindo o da música, é também possível dizer que Diddy sempre foi um aproveitador. Os méritos de sua carreira no rap, pop e R&B estão mais relacionados ao talento de outros artistas do que aos seus próprios.
A maior prova disso é que “Ready to Die”, clássico disco de Notorious B.I.G. e da cultura hip-hop, continuaria tendo basicamente a mesma força com ou sem a presença de Diddy nas músicas e clipes. Olhando em retrospectiva, talvez ficasse até melhor.



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