Opinião – João Pereira Coutinho: Admiro os escritores que resistiram a escrever o livro que tinham dentro de si

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Opinião – João Pereira Coutinho: Admiro os escritores que resistiram a escrever o livro que tinham dentro de si


O verão corre na Europa e a imprensa se inunda de “Questionários Proust”, aquelas perguntas levemente pessoais, levemente filosóficas, que faziam sucesso nos salões parisienses do século 19. Até Marcel Proust, que batizou o gênero, se submeteu a eles, quebrando sua timidez habitual.

Já não temos Proust. Temos apenas um número infindo de “pessoas do bem” que aproveitam o momento para abrir as suas gabardines e exporem aos outros o tamanho da sua virtude.

Confrontado com a epidemia de questionários e usando o da revista Vanity Fair como modelo, vou escrevendo à mão sobre as respostas das celebridades e “influencers”, as minhas meditações instantâneas. Convido o leitor a fazer o mesmo e a partilhar o resultado.

Como diria o médico lusitano Egas Moniz, o inventor da lobotomia: “Conhece-te a ti mesmo”.

“Qual é a sua ideia de felicidade perfeita?” “Um dia de verão com meus inimigos e eles saltando da prancha para uma piscina vazia.”

“Qual é a sua viagem favorita?” “Aqueles dez metros entre o sofá e a geladeira.”

“O que você menos gosta na sua aparência?” “Minhas semelhanças físicas com o ator Pedro Pascal. Já cansa.”

“Qual ou quem é o grande amor da sua vida?” “Minha antiga professora Sylvia Kristel, com quem aprendi francês e biologia.”

“Qual é a sua característica mais marcante?” “Conceder sempre aos outros o prazer de pagarem a conta para mim.”

“Com qual figura histórica você mais se identifica?” “Pepino, o Breve, Luís, o Gago, e Carlos, o Calvo —reis franceses que sobreviveram a suas alcunhas.”

“Se você morresse e voltasse como uma pessoa ou coisa, o que acha que seria?” “Um mosquito invisível pairando sobre as noites de Roger Waters.”

“Qual é o seu maior medo?” “Chegar ao inferno e encontrar todos os leitores que não entenderam as ironias. E explicar tudo de novo durante a eternidade.”

“Qual é o traço que você mais deplora em si mesmo?” “Não ter a capacidade de transformar a água em vinho.”

“Qual é o traço que mais deplora nos outros?” “As boas intenções.”

“Qual virtude você considera mais superestimada?” “A autenticidade. Prefiro aquela artificialidade que esconde os defeitos.”

“Em que ocasião você mente?” “Quando me enviam textos ou poemas e pedem muito uma opinião sincera a respeito.”

“Qual pessoa viva você mais despreza?” “Nenhuma em particular. Meus desprezos são amplos e democraticamente distribuídos.”

“Quais palavras ou expressões você mais usa?” “‘A situação é catastrófica, mas não séria’ —em homenagem aos Habsburgos. Também abuso de ‘está quase pronto’, ‘não me esqueci de você’ e ‘juro pelos seus filhos’.”

“Qual é o seu maior arrependimento?” “Ter seguido muitas vezes os conselhos dos mais sábios.”

“Quando e onde você foi mais feliz?” “No útero, sem boletos.”

“Qual é o seu estado de espírito atual?” “Aéreo como sempre. E sem paraquedas.”

“O que você mais detesta?” “Diarreia digital. Receber uma mensagem que vem às prestações.”

“O que você considera sua maior realização?” “Ter percebido muito jovem que Clark Kent e Super-Homem eram a mesma pessoa, separados apenas por uns óculos.”

“Se pudesse escolher como voltar, o que você gostaria de ser?” “Com as novas ameaças nucleares, talvez uma barata.”

“Qual é a sua posse mais preciosa?” “Um pelo pubiano da rainha Vitória —em homenagem ao cineasta João César Monteiro.”

“O que você considera o fundo do poço da miséria?” “Colonoscopia sem sedação.”

“O que você mais valoriza nos seus amigos?” “O fato de nem todos serem imaginários.”

“Quem são seus escritores favoritos?” “Todos os que resistiram à tentação de escrever o livro que tinham dentro de si.”

“Como você gostaria de morrer?” “Minha intenção é ser imortal. Mas, se tivesse de escolher, que fosse assistindo a um filme genial de Oliver Stone —o que, de tão improvável, dá no mesmo.”

“Quais são os seus nomes preferidos?” “Nomes portugueses arcaicos e injustamente esquecidos: Hermengarda, Eurico, Ordonho, Teodomiro. Nomes brasileiros modernos como Aricléia, Elvisley ou Gêngis Khan.”


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