Opinião – Joanna Moura: Quanto custa viver pra sempre?

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Opinião – Joanna Moura: Quanto custa viver pra sempre?


Em fevereiro deste ano, após sofrer críticas relacionadas a sua magreza, a influenciadora, modelo, herdeira e divulgadora de bets, Maya Mazzafera, reagiu, defendendo sua preferência por corpos magros:

“Gente rica ou francesa, que entende muito de moda é apaixonada por magreza, então assim, eu não estou nada magra para eles ou para brasileiros da elite. (…) Tanto é que se você perguntar para uma pessoa mais simples, ela gosta de uma pessoa mais encorpada. ‘aí você tá magra demais’. Não, você que aprendeu a gostar de pessoas mais gordas por causa da sua condição financeira”

A fala, absurda e preconceituosa, foi recebida com pouca surpresa diante de posicionamentos anteriores igualmente problemáticos, mas, ainda assim, gerou revolta por parte do público.

Maya certamente sofre do mal da falta de filtro ou de noção, provavelmente uma combinação dos dois, mas sua fala, apesar de absolutamente equivocada, tem o mérito de ser genuína, não no sentido de ser verdadeira, mas de revelar verdadeiramente o que pensa essa elite da qual ela faz parte.

A verdade é que, desde que a magreza se tornou sinônimo de “corpo ideal”, ser magro virou marcador social, um indicador de poder aquisitivo. Ao contrário do resto dos mortais, ricos tinham tempo e dinheiro para investir nessa busca, com a ajuda de médicos, nutricionistas, personal trainers… Mas com a popularização de remédios como Ozempic e Mounjaro, nunca foi tão fácil se tornar magro. Pra quem tem dinheiro, claro.

Pois bem, com a corrida pela magreza aparentemente ganha, tenho percebido uma nova febre entre os ultra ricos. A febre da vida eterna. Veja que eu não me refiro à juventude. O “parecer jovem” sempre foi sinônimo de status. Senhoras endinheiradas há muito recorrem à toda sorte de procedimentos dignos dos filmes de Cronenberg, para esticarem suas peles e esconderem a idade. Mas estamos diante de uma nova onda que não deseja apenas parecer mais jovem, mas que de fato deseja viver consideravelmente mais e está disposto a gastar fortunas para comprar longevidade.

O termo biohacking não é novo, mas tem ganhado mais e mais adeptos no mainstream milionário. Num recente tapete vermelho, perguntada sobre sua nova aparência, a cantora Meghan Trainor disse: “Estou tentando biohack o meu corpo. Tudo o que puder me ajudar a envelhecer ao contrário, eu estou dentro.” É disso que se trata, uma espécie de Benjamin Button para quem pode bancar todos os tratamentos envolvidos em tentar fazer o relógio do corpo andar para trás.

Assim como a magreza, a longevidade é e sempre foi um privilégio, acessível para aqueles que podem se dar ao luxo de trabalhar pouco, cuidar do corpo, da saúde mental, se alimentar bem, ter acesso a médicos e tecnologias que custam caro.

Em Mountainhead, o diretor e roteirista Jesse Armstrong (criador do retumbante sucesso Succession) narra o encontro de quatro bilionários na nova mansão de um deles, no alto de uma montanha coberta de neve. No filme, Steve Carrell interpreta Randall, o mais velho do grupo, um bilionário recentemente diagnosticado com câncer terminal. Randall vê no desenvolvimento tecnológico a chance de viver para sempre e, para acelerar esse processo, está disposto a instaurar o caos global. Uma sátira, claro, mas tão próxima da realidade que não consegui passar da metade do filme.

Nada novo. A busca da vida eterna é mais uma faceta do ultra-individualismo. A última fronteira do que o capitalismo é capaz de oferecer aos seus “vencedores”. Resta saber quanto sobrará de vida para o resto da humanidade.


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