Eu ainda estava sob os efeitos da dose substancial de Rivotril, prescrita para administrar o meu inconveniente pavor de viagens de avião, quando o piloto anunciou:
“Senhoras e senhores, aqui quem fala é o comandante. Dentro de aproximadamente 20 minutos iniciaremos nosso procedimento de descida para o Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro. Neste momento, a temperatura local é de 26°C, com céu azul.”
Eu já andava anestesiada há dias, dando conta de empacotar dez anos em sete malas e três mochilas, enquanto as crianças —de férias— pulavam no sofá de uma sala que já não nos pertencia mais.
A decisão foi tomada alguns meses atrás. “Acho que vamos ter que voltar pro Brasil”, disse sem ser perguntada, interrompendo o silêncio confortável de uma quarta-feira, as palavras rolando involuntariamente da boca, como um refluxo que sobe pela garganta com a lembrança distante de um sabor que já foi bom, mas que toca a língua de um jeito indigesto.
“Vamos ter que voltar.” repeti, como se forças do além estivessem me obrigando a levantar âncora da vida em Londres.
“O trabalho tá lá” foi a razão inicial, mas a lista de motivos para o retorno foi sendo completada à medida que a notícia da mudança foi sendo revelada a amigos, parentes, conhecidos e semi-desconhecidos de um lado e de outro do oceano Atlântico.
“Você vai voltar pro Brasil?” era a resposta-pergunta que mais ouvi, sempre acompanhada de expressões de pena, sempre seguida de um incrédulo “mas por quê?”.
Eu entendo. A verdade é que apesar das muitas razões razoáveis que me levaram a mudar novamente de continente, há qualquer coisa de loucura em se propor uma mudança dessa magnitude, de novo. Depois de ter feito o que muitos consideram o caminho mais difícil: sair de onde se veio, lidar com a hostilidade do novo, com a solidão de se tornar estrangeiro. Depois de ter achado uma posição minimamente confortável nesse novo arranjo da vida, quem em sã consciência resolve, por livre e espontânea vontade, levantar novamente e percorrer o caminho de volta?
A pergunta andou ecoando em mim desde as fatídicas palavras vomitadas naquela quarta-feira. Enquanto arrumava as malas, enquanto as lágrimas corriam pelo rosto nas despedidas dos amigos, enquanto ouvia as palavras do piloto avisando que pousaríamos no Galeão. Por que voltar?
A resposta veio três dias depois, quando o ator e meu conterrâneo Wagner Moura, recebeu o Globo de Ouro por sua atuação em “O Agente Secreto“. Em meio a euforia que tomou as redes sociais, me deparei com um clipe do ator.
“Sou um ator muito melhor quando trabalho em português. A minha verdade é em português.”
As palavras de Wagner, ditas com seu sotaque que conheço tão bem, me abraçaram. Primeiro porque o sucesso do Brasil em qualquer coisa, o reconhecimento pelo mundo da nossa magnitude, da nossa criatividade, da nossa excelência, resiliência e coragem têm a capacidade mágica de diminuir o espanto alheio diante da decisão de retornar.
Mas, mais do que isso, suas palavras me mostraram que a decisão de voltar não obedece a lógicas, não responde ao comando da razão. É coisa do intangível, que nasce na boca do estômago. Estou voltando para a minha verdade, essa que rola da boca em muitos decibéis. E em português.
Todas
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