Viajando com minhas duas irmãs —pela primeira vez só nós três, sem filhos, sem maridos, sem pais—, não demorou para nos autointitulamos “as três amigas da última temporada de ‘The White Lotus‘”. A referência à série era inevitável: três mulheres viajando juntas por paisagens deslumbrantes, com conversas atravessadas por camadas de passado e presente, piadas internas, mágoas antigas, cumplicidades novas.
Na série, porém, as amigas de infância, separadas pelo tempo e reunidas novamente pela viagem ao outro lado do mundo, passam rapidamente do amor ao rancor. As trocas de afetos e elogios das primeiras horas são substituídas por fofocas invejosas, comentários mesquinhos e indiretas pontiagudas.
A trama brinca com o imaginário da competição entre mulheres, da ideia de que a amizade feminina é essa coisa frágil, delicada, uma película superficial de amabilidade dissimulada que esconde camadas profundas de sordidez.
A caricatura retratada na tela é cômica e serve muito bem ao propósito da série de descortinar o véu de polidez das altas castas e fazer o espectador ver o pior de cada personagem, transformando todos em possíveis suspeitos do crime cometido já na primeira cena do primeiro episódio.
Mas fora das telas, felizmente, tenho experimentado o contrário. Estar há dias na companhia exclusiva de duas mulheres tem sido um raro privilégio, o exato oposto da inimizade pintada pela série. E se engana quem pensa que a boa convivência é resultado do elo sanguíneo que nos une. Fomos criadas, as três, em lados opostos deste país continental e escolhemos nos tornar mais e mais irmãs com o passar do tempo.
Nesses dias, nos abraçamos com palavras e silêncios. Nos apoiamos, nos elogiamos e nos empurramos para frente e para cima. Falamos de nós e do mundo, dos nossos sonhos e desconfortos, das certezas e das inseguranças, rimos juntas das nossas falhas e faltas, concordamos muito e discordamos veementemente. Mas em nenhum momento vi surgir um fiapo dessa maldade que conectava as três amigas da ficção.
Não é a primeira vez que comprovo na vida real a falácia do mito da inimizade feminina. Pela minha experiência, mulheres em seu habitat natural e em companhia umas das outras são verdadeiramente torcedoras umas das outras. Juntas são capazes de argumentar sem atacar, de mudar de ideia sem se sentir derrotada. Parece pouco, mas olho em volta e penso que é mesmo coisa rara.
Nos poucos momentos que acesso a internet em meio aos meus dias desconectada, vejo homens no poder brigando uns com os outros, disputando quem grita mais alto em tuítes malcriados, brincando com vidas enquanto apertam botões que iniciam guerras enquanto ignoram os problemas muito reais em curso.
Todas
Discussões, notícias e reflexões pensadas para mulheres
Enquanto isso, olho para os lados e vejo que há outra forma. Veja, não estou dizendo que mulheres são superiores. Mas existe, sim, uma qualidade nas relações femininas que merecia mais espaço nos espaços de decisão: a escuta.
Durante essa semana, vivi na prática aquilo que tantas vezes defendi na teoria: que amizades entre mulheres são potências transformadoras. Que o que se constrói entre mulheres é revolucionário. E que se o poder fosse um pouco mais feminino —no melhor e mais amplo sentido da palavra— talvez já tivéssemos resolvido alguns problemas que os homens seguem discutindo há séculos sem sair do lugar.
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