Dez gotas de Clonazepam lambidas diretamente da mão logo após a passagem pelo raio x que é pra dar tempo de fazer efeito antes de decolar. Ainda assim, ao pôr o pé no avião (sempre o direito primeiro e olhando para o alto que é pra não ver com qual dos dois a pessoa à minha frente entrou), respondo aos cumprimentos da tripulação com uma série de perguntas: tem alguma turbulência prevista? Quanto? Forte ou fraca? Vocês vieram de lá hoje? Foi tranquilo? O rosto estampando uma máscara de serenidade, tentando ofuscar o desespero com uma aura de normalidade.
Nem sempre foi assim. Fui uma criança que viajava muito. Isso numa época em que avião tinha área de fumantes, faca de metal nas refeições e cabine do piloto sem tranca. Aos oito anos, numa ida ao Rio de Janeiro para visitar os meus avós, fui premiada pela tripulação por bom comportamento e convidada a testemunhar a aterrissagem no Santos Dumont diretamente do cockpit. Fui obrigada a levar meu irmão mais novo junto —cujo comportamento, diga-se de passagem, estava longe de render tal reconhecimento— porque minha mãe sabiamente queria evitar o chororô acompanhado de gritos de “eu também quero!”. Certa ela, hoje em dia eu faria o mesmo.
Vi o avião se aproximar do que devia ser chão, mas era água, até que uma pista magicamente apareceu à frente do bico da aeronave que se jogou contra o asfalto e freou agressivamente antes que a pista desaparecesse novamente. E mesmo diante daquele pouso que, até para pilotos experientes, parecia complexo, meu coração manteve o ritmo. E o sorriso genuíno no rosto foi acompanhado apenas de um suspirado “uau”, fruto de puro encantamento.
Trinta e poucos anos mais tarde me pego sendo consolada por uma aeromoça em pleno voo enquanto tomo mais algumas gotas do ansiolítico. Ela acaricia meu braço enquanto me fala que o avião é muito seguro, que está tudo sob controle, que o chacoalhar não passa de uma turbulência passageira. Coisa que ela vê todo dia.
“Eu sei.” lhe respondo chorosa. “Mas meu medo não é racional.”
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A turbulência eventualmente parou e o voo seguiu suave como se a aeronave estivesse parada no ar. Durante as demais oito horas que demoramos para aterrissar do outro lado do Atlântico, pensei na falta de lógica daquele medo infundado. Do pânico seletivo que escolhe como gatilho estar a bordo do meio de transporte mais seguro do mundo.
Ao me ouvir falar durante uma hora sobre minha fobia de voar, o psiquiatra me disse que muitas vezes escolhemos nossos medos por conveniência. Refutei veementemente. “Mas eu viajo muito!” Lhe disse com revolta. “Não tem nada de conveniente ter medo de alguma coisa que é tão parte da minha vida”.
Mas, findada a sessão, fui obrigada a refletir e humildemente concordar. De todos os medos da vida adulta — o desemprego, a solidão, o colapso ambiental, o diagnóstico, a parentalidade — escolhi me apegar àquele com probabilidade baixíssima de dar merda. Um medo com hora marcada, que começa na fila do embarque e termina no momento em que o avião toca o solo.
Me dei conta de que talvez, inconscientemente, tenha escolhido a fobia de avião como medo de estimação porque não posso me dar ao luxo de deixar que os outros tantos medos que verdadeiramente vivem à espreita me paralisem. Conscientemente eles seguem todos de mãos dadas no meu cérebro, mas, como disse Gregório Duvivier outro dia, “você só consegue ser feliz se esquecer da morte”. Eu escolho diariamente esquecer dos meus medos, pelo menos até a hora de decolar.
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