Opinião – Joanna Moura: Homens, está na hora de parar de ligar para o pediatra

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Opinião – Joanna Moura: Homens, está na hora de parar de ligar para o pediatra


A primeira vez que eu fui à ginecologista eu tinha 14 anos. Não havia nada de errado comigo. Eu tinha acabado de ficar menstruada e, como se o sangue na calcinha fosse algum sinal divino, minha mãe prontamente marcou a médica para a semana seguinte. Doutora Cristina me recebeu em seu consultório com um sorriso acolhedor. Com voz suave, ela me perguntou sobre a menstruação, depois pediu que eu tirasse a roupa e colocasse o robe, que deitasse naquela cadeira desconfortável, que abrisse as pernas e que não me preocupasse que não ia doer nada. O sorriso sempre no rosto, como um antídoto de naturalidade para a antinaturalidade daquela situação.

E foi assim que, do alto dos meus 14 anos, fui promovida de pediatra a ginecologista, de menina a mulher. Meu irmão, quatro anos mais novo do que eu, nunca passou por tal rito de passagem. Hoje, com quase 40, ele tem pavor de médico.

Ao longo da vida, perdi as contas de quantas vezes fui me consultar com uma ginecologista. Todas as consultas seguiam o mesmo ritmo, começavam com uma longa conversa sobre a vida, costurando saúde a assuntos banais, como um mosaico de peças do mesmo tamanho, com a mesma importância, apenas de cores e texturas diferentes. “Como tá o namoro? E o trabalho? E a candidíase? Como foi a viagem? Sexo tá bom? Sentindo alguma dor? Parabéns pelo livro!”.

De acordo com pesquisa realizada por mim e dados muito confiáveis tirados das minhas conversas em mesas de bar, 99% das mulheres relatam experiências parecidas, categorizando a ginecologista de preferência como sua “médica da vida”. Posso afirmar tal dado com convicção porque o assunto “saúde” é recorrente. Via de regra, mulheres, quando entre mulheres, falam sobre seus corpos, suas vidas sexuais, suas perebas, seus desconfortos. É como se a saúde reprodutiva da mulher e a preocupação obsessiva da sociedade com nossa capacidade de ter filhos nos intitulassem, minimamente, a uma consciência individual e coletiva sobre nossos corpos.

Em contrapartida, certa vez, conversando com um amigo, descobri que, aos 30 e tantos anos, ele ainda se consultava com o pediatra que o atendia na infância. Por “se consultava” quero dizer: ligava quando sentia que alguma coisa estava errada. A medida era apenas em caso de extrema necessidade. Se fosse apenas um incômodo, a ligação era para a mãe em vez de ser para o médico.

Por incrível que pareça, meu amigo parece não estar sozinho: pesquisas mostram que 1 em cada 2 homens só busca atendimento médico quando sente algum sintoma. Foi por causa de estatísticas como essa que novembro virou o mês de prevenção contra o câncer de próstata, que, mesmo com 95% de chance de cura quando detectado precocemente, ainda mata cerca de 18 mil homens no Brasil todos os anos.

Hoje, o movimento Novembro Azul trata também de outras doenças que acometem os homens, como diabetes, hipertensão e obesidade. Todas tratáveis e preveníveis. Campanhas como essa buscam alertar os homens e educá-los sobre exames preventivos. Eu gostaria de incluir mais um item na lista de atitudes preventivas: a conversa.

Se os homens incluíssem nas conversas de mesa de bar, entre o futebol e o trabalho, uns minutos para se falar de saúde, garanto que os resultados seriam expressivos. Portanto, fica o meu pleito para você, homem, que lê esta coluna. No próximo encontro com os parças, puxe o assunto, compartilhe algo sobre a sua saúde, sem contar vantagem, sem performance e sem medo das piadas que possivelmente vão surgir. Conte que marcou um check-up ou mostre o vídeo do Novembro Azul do Porta dos Fundos com o Antonio Fagundes falando todos os sinônimos de ânus. Porque como diz o próprio Fagundes no vídeo: tomar no c* de verdade é ter câncer.


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